O Mistério do 702

Ele não queria saber. Não naquele domingo morno, em que até o vento parecia preguiçoso e a vizinhança flutuava entre a vida e o tédio. Mas era impossível ignorar o que escorria pelas paredes do prédio como uma memória lavada.

A mulher do 702 havia morrido.

Soube pela senhora da portaria – aquela que falava demais quando deveria apenas sorrir e entregar a correspondência. Ela cochichou como quem conta uma fofoca, mas havia nos olhos dela um medo real, denso, do tipo que só se vê em velórios ou acidentes de estrada. O tipo de medo que não precisa de prova – apenas de silêncio.

Ele fingiu que não ligava. Subiu os sete andares pensando em qualquer coisa banal: a lista de compras, a reunião de terça-feira, a lâmpada da sala que precisava ser trocada. Mas, ao passar diante da porta do 702, seus passos desaceleraram. A madeira parecia mais escura, como se tivesse absorvido a tragédia. Como se pulsasse.

Ele se lembrou dela.

Raramente a via. O rosto escondido por óculos escuros mesmo em dias nublados; o perfume doce demais para alguém tão triste. E aquela mania de entrar e sair em horários que pareciam calculados para não cruzar com ninguém.

Nunca houve barulho, nem visitas, nem festas. Apenas uma presença quase ausente – como uma rachadura antiga no teto, uma sombra que se aprende a ignorar por hábito, não por ausência de medo.

Diziam que foi acidente. Diziam também que foi outra coisa.

Tentava não pensar nisso quando, à noite, ouvia um leve arranhar vindo do corredor. Talvez um rato. Talvez o vento. Ele se convencia disso, até perceber que o som vinha da porta do 702. E que cessava sempre que prendia a respiração.

No terceiro dia, o prédio parecia ter voltado ao normal. O cheiro de pão queimado vindo de algum café matinal. Crianças batendo portas. O rádio da vizinha desafinado. Mas algo não encaixava. Ainda não.

Começou a notar detalhes. A porta do 702, entreaberta – embora o zelador jurasse tê-la trancado com duas voltas. A luz da janela piscando durante a madrugada – mesmo com a energia oficialmente cortada. O espelho do elevador, antes apenas embaçado, agora deformando brevemente o reflexo dele – como se o observador fosse outro.

E, sobretudo, aquela sensação de estar sendo olhado. Não observado. Olhado. Como se olhos antigos o seguissem com paciência.

Numa noite sem coragem, mas também sem sono, desceu ao térreo. O segurança assistia televisão, distraído. A velha da portaria cochilava sobre o balcão, um fio de saliva pendendo do canto da boca. E então ele viu. Uma folha amassada, esquecida entre papéis, trazia o registro da última visita feita à mulher do 702.

Nenhum parente. Nenhum amigo. Nenhum nome reconhecível.

Mas havia uma assinatura. E, abaixo dela, com outra caligrafia, trêmula e funda como se escrita por alguém aflito:

– Você prometeu.

A caneta escorregou de sua mão. Sentiu o suor frio na nuca antes mesmo de terminar de ler. O papel tinha manchas. Uma parecia sangue seco. Outra, talvez só café.

Ele não lembrava de ter prometido nada. E, no entanto, a palavra reverberava dentro dele como se tivesse sido dita há muito tempo. Como se não fosse a primeira vez que a lia.

Naquela madrugada, o arranhar retornou. Mais insistente. Mais próximo.

Na manhã seguinte, a porta do 702 estava escancarada. Mas o apartamento estava vazio.

Ou não exatamente.

No chão da sala, uma única cadeira. Voltada para a parede. Sobre ela, um lenço floral que ele lembrava ter sentido o perfume – doce demais – em algum corredor antigo. E um bilhete, escrito com a mesma caligrafia da frase anterior:

– Agora é sua vez.

Ele não entrou. Mas nunca mais saiu do prédio.

Não totalmente.

Desde então, a janela do 702 nunca mais ficou escura.

E sempre que alguém novo se muda para o andar de cima, o som de arranhões recomeça – pontual, paciente, esperando o próximo a lembrar do que jamais prometeu.


Silvia Marchiori Buss



 

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