O Lugar é o Mesmo
As paredes continuam onde sempre estiveram. A janela ainda se abre para a rua das árvores inclinadas, o café da esquina serve o mesmo aroma reconfortante, e os vizinhos – os que restaram – seguem com seus acenos contidos, como se o tempo não tivesse passado para eles.
Mas eu não.
Caminho pelos mesmos corredores, sento-me à mesma mesa, olho as mesmas fotografias emolduradas pelo pó e pelos anos. E, ainda assim, tudo parece estranho. Como se o mundo tivesse sido levemente deslocado, apenas um centímetro fora do lugar – o bastante para ninguém notar, exceto por mim. Um deslocamento íntimo, imperceptível aos olhos alheios, mas que me empurra para fora de mim mesma.
Já não escuto da mesma maneira. O som da chaleira, o farfalhar das folhas, até mesmo os passos no andar de cima – tudo parece filtrado por uma distância que não existia antes. Não rio com o mesmo abandono. O riso agora vem medido, quase sempre atrasado. E quando espero, é com menos esperança e mais cautela. Algo em mim se desfez. Como um nó frouxo que se solta sozinho no escuro, sem aviso, sem testemunhas.
As lembranças ainda moram aqui. Ocupam os cantos da sala como móveis pesados demais para serem movidos. Continuam impondo sua presença, mesmo fora do tempo. Mas já não combinam com a cor que meus olhos enxergam agora – uma paleta mais fria, menos marcante.
Há dias em que me pergunto se sou eu quem habita esse espaço, ou se apenas ocupo, de forma interina, o que restou dele.
O lugar é o mesmo.
Mas quem o habitava em mim... partiu faz tempo.
E não deixou bilhete de volta.
Silvia Marchiori Buss
Mas eu não.
Caminho pelos mesmos corredores, sento-me à mesma mesa, olho as mesmas fotografias emolduradas pelo pó e pelos anos. E, ainda assim, tudo parece estranho. Como se o mundo tivesse sido levemente deslocado, apenas um centímetro fora do lugar – o bastante para ninguém notar, exceto por mim. Um deslocamento íntimo, imperceptível aos olhos alheios, mas que me empurra para fora de mim mesma.
Já não escuto da mesma maneira. O som da chaleira, o farfalhar das folhas, até mesmo os passos no andar de cima – tudo parece filtrado por uma distância que não existia antes. Não rio com o mesmo abandono. O riso agora vem medido, quase sempre atrasado. E quando espero, é com menos esperança e mais cautela. Algo em mim se desfez. Como um nó frouxo que se solta sozinho no escuro, sem aviso, sem testemunhas.
As lembranças ainda moram aqui. Ocupam os cantos da sala como móveis pesados demais para serem movidos. Continuam impondo sua presença, mesmo fora do tempo. Mas já não combinam com a cor que meus olhos enxergam agora – uma paleta mais fria, menos marcante.
Há dias em que me pergunto se sou eu quem habita esse espaço, ou se apenas ocupo, de forma interina, o que restou dele.
O lugar é o mesmo.
Mas quem o habitava em mim... partiu faz tempo.
E não deixou bilhete de volta.
Silvia Marchiori Buss
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