O Homem Que Esqueceu o Bando

Seu nome era Ernesto, mas quase ninguém mais o chamava assim. Aposentado, viúvo, e com os filhos dispersos pelo país como folhas levadas pelo vento, era apenas “o vizinho do 302” — aquele que descia para buscar o jornal sem olhar para os lados e voltava com a mesma pressa silenciosa.

O mundo, que um dia girava em torno de colegas de trabalho, jantares animados, vozes no telefone e aniversários em família, agora parecia girar sozinho — como um pião que perde o fôlego e vacila até tombar.

Ernesto se acostumara ao silêncio. Tão acostumado, aliás, que já não percebia que o rádio da sala estava desligado havia dias. A cadeira ainda virada para a TV, mas os olhos já não viam. Não era por cansaço de assistir — era por não ter com quem comentar. E novela sem comentários é como sopa sem sal.

Foi numa tarde qualquer, daquelas em que o tempo se arrasta entre o almoço e o anoitecer, que ele resolveu sair. Caminhar ainda era um ato de resistência. Teimosia mais do que hábito. No parque, parou diante de um grupo de pássaros que disputava migalhas. Empurravam-se, gritavam, afastavam-se e voltavam. Nenhum se contentava com a solidão. Um deles, menor, tentou se afastar. Logo outro o chamou de volta, com um pio agudo e insistente.

Ernesto sentiu algo apertar no peito. Não era dor. Talvez fosse memória. Talvez saudade. Talvez um nome que ele já não lembrava mais como doía.

Naquela noite, sonhou que era um lobo. Mas não o feroz, dos contos de fadas. Era um lobo velho, de pelos ralos e olhos cinzentos. Andava sozinho por uma floresta escurecida, e cada passo ecoava como uma pergunta sem resposta. Uivava, e o som voltava vazio.

Acordou suando. Pela primeira vez em muito tempo, desejou ouvir uma voz humana — mesmo que não fosse dirigida a ele.

No dia seguinte, desceu mais cedo. Trazia nas mãos um saco de pão cortado em pequenos pedaços. Parou diante do banco onde se reuniam os aposentados do bairro — homens de fala fácil e memória repetida. Sentou-se sem ser convidado. Também não foi expulso.

— Vai um pedaço? — perguntou alguém, estendendo um sonho frito, ainda morno.

Ernesto aceitou. Mordeu. O açúcar grudou no bigode branco e, pela primeira vez em anos, ele riu. Riu curto, meio rouco, como quem esqueceu o som da própria risada.

Na semana seguinte, voltou. Ninguém perguntou seu nome. Ninguém precisou. Aos poucos, ele aprendeu os apelidos, os resmungos, os gestos. Riu de piadas bobas. Discordou de um comentário sobre política. Um dia, até levou uma garrafa térmica com café.

Não se tornou íntimo de ninguém. Nem queria. Mas aquele banco, com suas piadas de ossos doendo e lembranças de um tempo que ninguém sabia se foi real ou apenas inventado de tanto repetir, oferecia uma coisa preciosa: a presença dos outros.

Ernesto nunca mais sonhou com lobos. Mas também não passou a uivar de alegria. Ele apenas reaprendeu um modo de estar. Um jeito mais brando de existir.

No fim, descobriu que viver em bando não é o mesmo que estar cercado de gente. É apenas saber que, em algum banco de praça, alguém notaria se um dia ele não aparecesse.

E, às vezes, isso basta.


Silvia Marchiori Buss

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