O Homem da Janela Azul
Ninguém sabia ao certo o nome dele. Para os vizinhos, era apenas “o homem da janela azul” – uma figura discreta, de cabelos grisalhos e olhos fundos, que todas as manhãs empurrava a cortina e olhava a rua como quem espera. Mas espera o quê?
Não esperava o carteiro, nem visitas, nem entregas. Esperava... algo.
Ele morava sozinho havia anos. A casa, modesta e silenciosa, guardava os ecos de uma vida inteira: fotos empoeiradas nas estantes, uma cadeira a mais na mesa da cozinha, um quarto fechado que ninguém mais usava. Diziam que fora casado, que perdera a mulher ainda jovem, que não tivera filhos. Mas ninguém sabia ao certo – e ele também não falava. Apenas esperava.
Os dias passavam iguais: café coado na hora, pão aquecido na frigideira, rádio antigo tocando baixinho. Depois, sentava-se diante da janela azul, como se o mundo pudesse mudar a qualquer instante – e, no fundo, ele acreditava que sim.
Era um homem de fé.
Não daquelas proclamadas em alto e bom som nas igrejas, mas uma fé sussurrada, quase envergonhada, que se mantém viva mesmo quando o mundo desaprende a crer. Era uma fé absurda – não baseada em promessas, mas em resistência.
Acreditava que um dia a saudade teria nome, que o vazio se tornaria presença. Que algo, alguém, ou até mesmo Deus, voltaria a bater à sua porta.
E por isso colocava flores frescas no parapeito todos os domingos. Mesmo sem ninguém para vê-las.
Um dia, um menino da vizinhança se aproximou, curioso:
– Por que o senhor põe flores aí, se mora sozinho?
Ele sorriu, com um brilho antigo nos olhos:
– Porque um dia ela pode voltar. E eu quero que a casa esteja bonita pra recebê-la.
O menino foi embora, confuso. E ele voltou ao seu lugar, na poltrona junto à janela, como quem guarda um segredo que o tempo não foi capaz de roubar.
A vizinhança seguiu, as estações mudaram, os rostos também. Mas o homem da janela azul permaneceu.
Até que, certa manhã, a cortina não se moveu. A flor não foi trocada. E a janela ficou vazia.
A casa foi vendida meses depois. E, quando os novos moradores entraram, encontraram sobre a mesa um caderno. Na primeira página, a letra firme dizia:
“A fé é a esperança levada às raias do absurdo. E mesmo que ela nunca tenha voltado, eu nunca deixei de esperá-la.”
A nova moradora, emocionada, pintou a janela de azul outra vez. E, desde então, toda manhã, abre as cortinas – como quem entende que há ausências que pedem flores.
E esperas que são, em si, formas de amor.
Não esperava o carteiro, nem visitas, nem entregas. Esperava... algo.
Ele morava sozinho havia anos. A casa, modesta e silenciosa, guardava os ecos de uma vida inteira: fotos empoeiradas nas estantes, uma cadeira a mais na mesa da cozinha, um quarto fechado que ninguém mais usava. Diziam que fora casado, que perdera a mulher ainda jovem, que não tivera filhos. Mas ninguém sabia ao certo – e ele também não falava. Apenas esperava.
Os dias passavam iguais: café coado na hora, pão aquecido na frigideira, rádio antigo tocando baixinho. Depois, sentava-se diante da janela azul, como se o mundo pudesse mudar a qualquer instante – e, no fundo, ele acreditava que sim.
Era um homem de fé.
Não daquelas proclamadas em alto e bom som nas igrejas, mas uma fé sussurrada, quase envergonhada, que se mantém viva mesmo quando o mundo desaprende a crer. Era uma fé absurda – não baseada em promessas, mas em resistência.
Acreditava que um dia a saudade teria nome, que o vazio se tornaria presença. Que algo, alguém, ou até mesmo Deus, voltaria a bater à sua porta.
E por isso colocava flores frescas no parapeito todos os domingos. Mesmo sem ninguém para vê-las.
Um dia, um menino da vizinhança se aproximou, curioso:
– Por que o senhor põe flores aí, se mora sozinho?
Ele sorriu, com um brilho antigo nos olhos:
– Porque um dia ela pode voltar. E eu quero que a casa esteja bonita pra recebê-la.
O menino foi embora, confuso. E ele voltou ao seu lugar, na poltrona junto à janela, como quem guarda um segredo que o tempo não foi capaz de roubar.
A vizinhança seguiu, as estações mudaram, os rostos também. Mas o homem da janela azul permaneceu.
Até que, certa manhã, a cortina não se moveu. A flor não foi trocada. E a janela ficou vazia.
A casa foi vendida meses depois. E, quando os novos moradores entraram, encontraram sobre a mesa um caderno. Na primeira página, a letra firme dizia:
“A fé é a esperança levada às raias do absurdo. E mesmo que ela nunca tenha voltado, eu nunca deixei de esperá-la.”
A nova moradora, emocionada, pintou a janela de azul outra vez. E, desde então, toda manhã, abre as cortinas – como quem entende que há ausências que pedem flores.
E esperas que são, em si, formas de amor.
Silvia Marchiori Buss

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