Medo
O verdadeiro medo da vida talvez nunca tenha sido a morte. A morte, afinal, é o fim – um ponto final que, de algum modo, silencia todas as dores, todas as lutas, todas as expectativas frustradas. A morte não exige mais nada de nós. Já a vida, sim. Exige tudo, todos os dias.
O que realmente assusta é acordar. Abrir os olhos a cada manhã e saber que, mais uma vez, será preciso vestir a coragem, costurar a esperança com fios gastos, enfrentar a vida nua, crua, sem anestesia, sem mapa, sem garantias de que algo fará sentido no fim do dia. O medo real está nos pequenos começos que se repetem infinitamente: levantar-se da cama, lavar o rosto, fingir normalidade, encontrar forças em lugares já escuros.
É encarar os vazios que ninguém vê, sustentar ausências que doem em silêncio. É conviver com os dias em que tudo parece desabar, e ainda assim ir – porque é o que se espera, porque há contas a pagar, filhos para criar, frases para dizer com a voz firme mesmo quando o coração treme. É atravessar as perdas que não cessam, as repetições que cansam, os sonhos que parecem mofar no canto da alma, os amores partidos que deixam farpas no corpo.
O verdadeiro medo não é deixar de existir, mas existir apesar de tudo. Apesar do cansaço que se acumula nos ossos e da esperança que às vezes se esconde em lugares inalcançáveis. É continuar andando mesmo quando já não se sabe mais por quê. É sorrir por educação, silenciar por exaustão, manter-se inteiro em uma vida que tantas vezes insiste em nos despedaçar.
Há um tipo de medo que cresce no silêncio: aquele que mora nas noites longas demais, no som abafado dos próprios passos dentro de uma casa vazia. É o medo da solidão que não se resolve com companhia. Porque há solidões que resistem mesmo entre abraços, que nos seguem mesmo rodeados de vozes.
É o medo de se tornar invisível. De que o mundo continue girando enquanto se é deixado de lado, enquanto as mensagens diminuem, os convites cessam, e ninguém nota quando a luz da varanda permanece apagada por dias. É o medo de ser necessário apenas quando se é útil, de ser lembrado apenas quando se é ausência.
E, ainda assim, talvez mais perverso que a solidão, seja o medo da repetição. Acordar e viver tudo outra vez. As mesmas rotinas, os mesmos trajetos, as mesmas palavras vazias. O café com gosto de ontem, os compromissos sem alma, a sensação de que nada muda, e que talvez nada vá mudar. A vida se tornando um eco de si mesma, como se a alma estivesse num eterno modo de espera.
Tem também o medo de sentir demais. Porque sentir exige coragem. E o medo nos quer mornos, anestesiados. Melhor não amar tanto – para não perder. Melhor não sonhar alto – para não cair. Melhor não esperar nada – para não se decepcionar. Mas esse “melhor” não nos livra da dor. Apenas a antecipa, a arrasta, a espalha pelos dias como uma névoa espessa que impede a luz de entrar.
E mesmo assim seguimos. Não por heroísmo. Mas por uma força que não sabemos de onde vem. Por pequenos instantes que resistem: o cheiro do pão na manhã, um riso inesperado, um afeto improvável, uma lembrança boa que nos visita sem pedir licença. É por esses fragmentos que enfrentamos a vida com seus dentes à mostra. É por eles que seguimos, mesmo com medo, mesmo sem saber como.
Porque viver, no fundo, é isso: ser maior que o medo — ainda que por um instante.
Silvia Marchiori Buss
O que realmente assusta é acordar. Abrir os olhos a cada manhã e saber que, mais uma vez, será preciso vestir a coragem, costurar a esperança com fios gastos, enfrentar a vida nua, crua, sem anestesia, sem mapa, sem garantias de que algo fará sentido no fim do dia. O medo real está nos pequenos começos que se repetem infinitamente: levantar-se da cama, lavar o rosto, fingir normalidade, encontrar forças em lugares já escuros.
É encarar os vazios que ninguém vê, sustentar ausências que doem em silêncio. É conviver com os dias em que tudo parece desabar, e ainda assim ir – porque é o que se espera, porque há contas a pagar, filhos para criar, frases para dizer com a voz firme mesmo quando o coração treme. É atravessar as perdas que não cessam, as repetições que cansam, os sonhos que parecem mofar no canto da alma, os amores partidos que deixam farpas no corpo.
O verdadeiro medo não é deixar de existir, mas existir apesar de tudo. Apesar do cansaço que se acumula nos ossos e da esperança que às vezes se esconde em lugares inalcançáveis. É continuar andando mesmo quando já não se sabe mais por quê. É sorrir por educação, silenciar por exaustão, manter-se inteiro em uma vida que tantas vezes insiste em nos despedaçar.
Há um tipo de medo que cresce no silêncio: aquele que mora nas noites longas demais, no som abafado dos próprios passos dentro de uma casa vazia. É o medo da solidão que não se resolve com companhia. Porque há solidões que resistem mesmo entre abraços, que nos seguem mesmo rodeados de vozes.
É o medo de se tornar invisível. De que o mundo continue girando enquanto se é deixado de lado, enquanto as mensagens diminuem, os convites cessam, e ninguém nota quando a luz da varanda permanece apagada por dias. É o medo de ser necessário apenas quando se é útil, de ser lembrado apenas quando se é ausência.
E, ainda assim, talvez mais perverso que a solidão, seja o medo da repetição. Acordar e viver tudo outra vez. As mesmas rotinas, os mesmos trajetos, as mesmas palavras vazias. O café com gosto de ontem, os compromissos sem alma, a sensação de que nada muda, e que talvez nada vá mudar. A vida se tornando um eco de si mesma, como se a alma estivesse num eterno modo de espera.
Tem também o medo de sentir demais. Porque sentir exige coragem. E o medo nos quer mornos, anestesiados. Melhor não amar tanto – para não perder. Melhor não sonhar alto – para não cair. Melhor não esperar nada – para não se decepcionar. Mas esse “melhor” não nos livra da dor. Apenas a antecipa, a arrasta, a espalha pelos dias como uma névoa espessa que impede a luz de entrar.
E mesmo assim seguimos. Não por heroísmo. Mas por uma força que não sabemos de onde vem. Por pequenos instantes que resistem: o cheiro do pão na manhã, um riso inesperado, um afeto improvável, uma lembrança boa que nos visita sem pedir licença. É por esses fragmentos que enfrentamos a vida com seus dentes à mostra. É por eles que seguimos, mesmo com medo, mesmo sem saber como.
Porque viver, no fundo, é isso: ser maior que o medo — ainda que por um instante.
Silvia Marchiori Buss

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