Fazer o Quê com Tanta Vida
Tadeu acordava cedo. Não por hábito, mas por insistência do corpo, que já não sabia dormir direito. Setenta e dois anos e uma leveza nos passos que parecia cansaço. O prédio antigo rangia ao menor movimento, como se também estivesse cansado de permanecer em pé.
No tempo dele – aquele de antes dos boletos digitais e dos sorrisos sem dentes postados em redes sociais –, o dia começava com jornal, pão aquecido na chapa e rádio tocando as primeiras notícias. Agora, o rádio já não tocava, o pão era congelado e o jornal era só uma tela fria que ele não sabia usar. Mas ele ainda fazia café, como quem preserva uma fronteira contra o esquecimento.
Do outro lado do corredor, Joana vivia outro fuso horário. Trinta e três anos e um cronograma espremido entre reuniões, atendimentos, remédios da mãe e um amor recente que já mostrava sinais de desgaste por “falta de agenda”. Carregava o corpo como se fosse mochila: útil, mas pesada. Fazia tudo depressa, inclusive sofrer.
Sua juventude tinha urgência, mas já conhecia o gosto amargo do adiamento.
Os dois se viam às vezes no hall do prédio – ele com seu passo de quem não tem compromisso, ela tropeçando nos próprios pensamentos. Joana sempre foi cordial, mas apressada. Tadeu sempre foi gentil, mas invisível.
Até o dia em que ela deixou cair uma sacola, e ele, com o tempo inteiro nas mãos, abaixou-se para ajudá-la. O gesto foi mínimo, mas o silêncio depois foi longo, como se os dois tivessem, por um instante, pousado no mesmo lugar da vida.
Começaram a se encontrar – primeiro por acaso, depois por cuidado. Ela passou a trazer bolo de cenoura da padaria, ele oferecia chá em xícaras desbeiçadas. Tadeu contava histórias que pareciam inventadas, mas eram só memórias com saudade. Joana ouvia, às vezes chorando, como se as palavras dele desatassem os nós que ela nem sabia que tinha.
Certa vez, enquanto a tarde se esfarelava na varanda do apartamento dele, Joana desabafou:
– Sabe, Seu Tadeu... às vezes parece que tem vida demais aqui dentro. Muita demanda, muita dor, muita pressa – dizia, batendo a mão no peito – como se eu fosse uma represa prestes a estourar.
Ele demorou a responder. Observou o voo curto de um passarinho sobre o telhado vizinho antes de dizer:
– E eu, menina... sou o contrário. Tenho tempo de sobra, silêncio de sobra, espaço demais aqui dentro. Só que falta vida pra preencher.
Ficaram calados. A diferença de idades já não era obstáculo – era ponte. Os dois viviam tempos distintos, mas dores vizinhas. Ela no auge que sufoca. Ele no fim que ecoa.
Ficaram assim, olhando a luz se mover pelas cortinas. Até que Joana perguntou, com os olhos úmidos:
– E então, Seu Tadeu... o que a gente faz com tanta vida?
Ele sorriu, como quem já pensou nisso mil vezes, e respondeu baixinho:
– A gente reparte.
No tempo dele – aquele de antes dos boletos digitais e dos sorrisos sem dentes postados em redes sociais –, o dia começava com jornal, pão aquecido na chapa e rádio tocando as primeiras notícias. Agora, o rádio já não tocava, o pão era congelado e o jornal era só uma tela fria que ele não sabia usar. Mas ele ainda fazia café, como quem preserva uma fronteira contra o esquecimento.
Do outro lado do corredor, Joana vivia outro fuso horário. Trinta e três anos e um cronograma espremido entre reuniões, atendimentos, remédios da mãe e um amor recente que já mostrava sinais de desgaste por “falta de agenda”. Carregava o corpo como se fosse mochila: útil, mas pesada. Fazia tudo depressa, inclusive sofrer.
Sua juventude tinha urgência, mas já conhecia o gosto amargo do adiamento.
Os dois se viam às vezes no hall do prédio – ele com seu passo de quem não tem compromisso, ela tropeçando nos próprios pensamentos. Joana sempre foi cordial, mas apressada. Tadeu sempre foi gentil, mas invisível.
Até o dia em que ela deixou cair uma sacola, e ele, com o tempo inteiro nas mãos, abaixou-se para ajudá-la. O gesto foi mínimo, mas o silêncio depois foi longo, como se os dois tivessem, por um instante, pousado no mesmo lugar da vida.
Começaram a se encontrar – primeiro por acaso, depois por cuidado. Ela passou a trazer bolo de cenoura da padaria, ele oferecia chá em xícaras desbeiçadas. Tadeu contava histórias que pareciam inventadas, mas eram só memórias com saudade. Joana ouvia, às vezes chorando, como se as palavras dele desatassem os nós que ela nem sabia que tinha.
Certa vez, enquanto a tarde se esfarelava na varanda do apartamento dele, Joana desabafou:
– Sabe, Seu Tadeu... às vezes parece que tem vida demais aqui dentro. Muita demanda, muita dor, muita pressa – dizia, batendo a mão no peito – como se eu fosse uma represa prestes a estourar.
Ele demorou a responder. Observou o voo curto de um passarinho sobre o telhado vizinho antes de dizer:
– E eu, menina... sou o contrário. Tenho tempo de sobra, silêncio de sobra, espaço demais aqui dentro. Só que falta vida pra preencher.
Ficaram calados. A diferença de idades já não era obstáculo – era ponte. Os dois viviam tempos distintos, mas dores vizinhas. Ela no auge que sufoca. Ele no fim que ecoa.
Ficaram assim, olhando a luz se mover pelas cortinas. Até que Joana perguntou, com os olhos úmidos:
– E então, Seu Tadeu... o que a gente faz com tanta vida?
Ele sorriu, como quem já pensou nisso mil vezes, e respondeu baixinho:
– A gente reparte.

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