Enquanto o Sol Nasce
Quero ver o sol nascer como quem vê um velho amigo voltar de viagem – não importa há quanto tempo se foi, ele sempre chega com a mesma delicadeza silenciosa, e eu, com olhos ainda meio embaçados, o recebo.
Não será a ausência de quem
partiu. Nem a lentidão dos dias. Nem os traços no espelho que me farão murchar
por dentro.
Aprendi – a duras penas, sim –
que há perdas que nunca se compensam. Mas também há manhãs que não precisam
compensar nada. Basta que sejam manhãs.
O tempo passou. É visível: no
rosto, nos gestos mais demorados, na paciência com a pressa alheia. Mas em mim
ainda pulsa uma vontade antiga – talvez mais antiga que eu mesma – de continuar
sentindo. Não com euforia, nem com desespero... apenas sentindo.
Quero não planejar o futuro
como um general ansioso, mas pisar no presente com a leveza possível – porque o
amanhã é um mistério que nem sempre se revela.
E se não vier? Se o sol de
hoje for o último?
Bom, ao menos que me encontre
de olhos abertos, cara erguida ao céu, coração em estado de presença.
O resto... o resto é só
continuação ou pausa. Quem sabe?
Silvia Marchiori Buss
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