Dor
Um dia, a dor para de rasgar. Não porque tenha se curado — mas porque se cansou.
Cansa de gritar, de bater nas mesmas paredes internas, de pedir escuta num mundo que já voltou a andar.
Cansa de gritar, de bater nas mesmas paredes internas, de pedir escuta num mundo que já voltou a andar.
Há um momento em que o choro não vem. Não por superação — por exaustão. O corpo recua, a alma se senta num canto e observa.
No outro lado da dor, a gente desaprende a esperar. Dos outros, já não se espera compreensão. De si mesmo, já não se exige coragem.
Às vezes, uma xícara de café parece grande demais para ser erguida.
Às vezes, um botão na camisa parece pequeno demais para ser fechado.
O cotidiano vira montanha.
Respirar, nesses dias, é um ofício secreto. A cada fôlego, um pacto silencioso: ainda estou aqui.
O mundo não para. Carros seguem suas rotas, crianças soltam risadas nas esquinas, a chuva cai nos telhados como se não soubesse de sua dor.
Como se ignorasse que, por dentro, alguém desmorona devagar.
A dor não vai embora. Aprende apenas a mudar de lugar dentro da gente.
Vira sombra em quarto iluminado, nó sob a pele, lembrança no meio de uma frase.
Não desaparece. Reposiciona-se. Camufla-se nos gestos.
No outro lado, ninguém vence.
Não há troféu.
Há quem continue. Quem amanheça. Quem levante, vista a roupa, caminhe até a calçada.
Sobreviver é um verbo que se conjuga em silêncio.
E, um dia, sem anúncio, um fio de música passa pelo ar.
Não vem para curar.
Nem para consolar.
Apenas para lembrar que ainda estamos aqui.
E que existir — mesmo em frangalhos — ainda é um verbo possível.
Silvia Marchiori Buss
No outro lado da dor, a gente desaprende a esperar. Dos outros, já não se espera compreensão. De si mesmo, já não se exige coragem.
Às vezes, uma xícara de café parece grande demais para ser erguida.
Às vezes, um botão na camisa parece pequeno demais para ser fechado.
O cotidiano vira montanha.
Respirar, nesses dias, é um ofício secreto. A cada fôlego, um pacto silencioso: ainda estou aqui.
O mundo não para. Carros seguem suas rotas, crianças soltam risadas nas esquinas, a chuva cai nos telhados como se não soubesse de sua dor.
Como se ignorasse que, por dentro, alguém desmorona devagar.
A dor não vai embora. Aprende apenas a mudar de lugar dentro da gente.
Vira sombra em quarto iluminado, nó sob a pele, lembrança no meio de uma frase.
Não desaparece. Reposiciona-se. Camufla-se nos gestos.
No outro lado, ninguém vence.
Não há troféu.
Há quem continue. Quem amanheça. Quem levante, vista a roupa, caminhe até a calçada.
Sobreviver é um verbo que se conjuga em silêncio.
E, um dia, sem anúncio, um fio de música passa pelo ar.
Não vem para curar.
Nem para consolar.
Apenas para lembrar que ainda estamos aqui.
E que existir — mesmo em frangalhos — ainda é um verbo possível.
Silvia Marchiori Buss
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