Desembarcar do Barco

Preciso desembarcar desse barco.

Não por escolha, mas porque as águas mudaram.
O que antes era travessia a dois — remos compartilhados, silêncios cúmplices, paisagens descobertas juntos — agora é deriva. O barco ainda flutua, mas não leva mais o mesmo peso, nem a mesma direção.

Desembarcar não é abandonar. É, talvez, aceitar que certas viagens não seguem como estavam previstas.
Preciso encostar os pés na terra firme da rotina, reaprender o nome das horas sem a tua voz marcando os intervalos. Preciso descobrir como os finais de semana podem continuar sem os nossos cafés demorados, sem o teu braço ao meu redor quando o filme começava, sem o teu comentário que sempre vinha antes do último gole de vinho.

Desembarcar é parar de esperar pela tua volta física. É não me iludir com o barulho das chaves que não são as tuas, com o toque do celular que não traz o teu nome.
Mas é também carregar no bolso o bilhete da viagem que fizemos — não o da partida, mas o dos dias bons, dos portos felizes onde ancoramos o nosso amor.

Porque o amor, esse, não embarca nem desembarca. Fica.
Fica em mim, nas frestas da memória, no sabor do molho que aprendi contigo, no jeito que ajeito os travesseiros, no cuidado com que sigo falando de ti sem parecer que parei no tempo.

Mais um dia. Mais um fim de semana. Mais um nascer de sol que me convida a continuar.
E eu vou. Com saudade, mas também com coragem.
Porque o barco da dor não pode ser casa.
Mas o amor que construímos, esse sim — pode ser continente.

Silvia Marchiori Buss

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Energia na Parede

Navegando na Ausência

O Silêncio da Professora