Cheiro de Talco de Lavanda
Alguns cheiros têm o poder de atravessar o tempo. São presenças invisíveis que nos visitam mesmo anos depois, trazendo junto tudo aquilo que um dia nos fez sentir acolhidos. O cheiro de talco de lavanda é um desses.
Não é apenas uma fragrância
suave. É quase um portal. Um convite silencioso à lembrança de rituais de
cuidado, de gestos lentos, de mãos que sabiam afagar com calma, de silêncios
que diziam mais que qualquer palavra. O talco de lavanda tem cheiro de colo, de
tranquilidade, de pertencimento.
Quantas vezes um simples aroma
já nos devolveu um mundo? Basta abrir uma gaveta esquecida, uma caixa guardada
no alto do armário, e lá está ele: o cheiro que embala memórias. Não da
infância em si, mas daquilo que escolhemos guardar dela – o que realmente
ficou.
Há pessoas que nos marcam não
por grandes acontecimentos, mas pelos detalhes que repetiam com constância:
passar creme nas mãos, escrever cartas à mão, manter o mesmo perfume pela vida
inteira. Pequenos gestos que, quando somados, formam um abrigo emocional. Um
lar.
E quando essas pessoas partem,
deixam conosco esses sinais discretos, quase secretos, como forma de seguir
presentes. Um cheiro. Um hábito. Um objeto. É o modo mais delicado que o afeto
encontra para sobreviver ao tempo.
Abrir um frasco antigo de
talco, deixar o pó escorrer entre os dedos, pode ser um ritual de cura. Um
jeito de lembrar que o amor não se apaga com a ausência. Que há presenças que
não morrem — apenas se transformam.
Elas se tornam cheiro.
Se tornam gesto.
Se tornam memória.
Se tornam lavanda.
Silvia Marchiori Buss
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