A Dama de Companhia

Diana chegou com um guarda-chuva preto, uma maleta discreta e o silêncio de quem aprendeu a não se anunciar. Era esguia, com traços clássicos e postura de governanta inglesa. A senhora Albuquerque, desconfiada, aprovou a compostura. O senhor apenas acenou. Isadora fingiu ler um livro, mas a observava.

No primeiro dia, Diana se apresentou com doçura, mas sem invadir. Sentou-se ao lado da jovem, pegou A Insustentável Leveza do Ser e leu em silêncio.

Na segunda semana, Isadora já a esperava após o jantar. A insônia, o medo do escuro e as palavras não ditas se tornaram pistas para Diana, que passou a contar histórias — algumas reais, outras inventadas — sempre sobre garotas especiais e incompreendidas.

Isadora começou a rir, pedir conselhos, mostrar diários. E Diana se tornou porto seguro.
— Eles não te veem como eu vejo — dizia.

Logo, começou a editar a rotina da jovem: trocou remédios por fitoterápicos, afastou a terapeuta, sugeriu o abandono dos estudos.
— Você é sensível demais pra esse mundo bruto.

Isadora passou a depender do olhar e da aprovação da dama. Suas vontades começavam com um gesto dela.

Enquanto moldava a filha, Diana se aproximava do patriarca: inteligência refinada, gentilezas discretas, presença constante. Ele confiou. Ela se tornou essencial.
— Somos os únicos lúcidos nesta casa — sussurrava.

A senhora Albuquerque, cada vez mais isolada, viu sua presença encolher. Um dia, foi deslocada para outro quarto. Depois, saiu de casa. E não voltou.

No jantar de gala do Instituto, Diana surgiu de azul-marinho — não como empregada, mas como anfitriã. O patriarca, de mãos dadas com ela e com Isadora, sorria para os fotógrafos:
— Família unida.

Mas o poder não tolera clausura. Diana começava a sufocar no próprio império. O patriarca se afastava. Isadora trancava os diários. Uma nova funcionária — enviada pela mãe exilada — percebia demais e nada temia.

Diana perdeu o sono.

Ao tentar acessar o e-mail do patriarca, a senha falhou. Ele anunciou uma viagem e sugeriu que ela descansasse:
— Está tudo... organizado demais.

Na manhã de sábado, ao descer para o café, encontrou Isadora sendo servida com leveza. O patriarca lia o jornal.
Diana, por um instante, não foi notada.

Ficou ali. Invisível. E entendeu.

O domínio não se perde com gritos, mas no silêncio de quem já não teme.

Ela ainda ficaria por um tempo. Mas o império havia começado a ruir. Não por revolta. Mas por retorno.
Seria afastada com elegância. Sem escândalos.
Mas ela saberia.
E eles também.

Que o império da dama de companhia terminara como começou:
em silêncio.

 


Silvia Marchiori Buss

 

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