Vira - Lata Sem Dono

Ela se sentia como um cachorro sem dono. Sabia, claro, que o certo hoje em dia é dizer tutor, responsabilidade afetiva, vínculo consciente. Mas e daí? O ditado estava ali, atravessado nela feito farpa. Aquilo de estar solta no mundo, o focinho batendo em portas fechadas, o coração farejando o impossível: o rastro de um amor que não voltaria mais.

Amou. Muito. Daquele jeito sem medida, sem freio, sem pudor de se entregar inteiro. E foi assim por quase cinquenta anos — duas cabeças pensando, quatro olhos vigiando o mundo, dois corações batendo feito um só. A simbiose tinha se tornado paisagem. O cotidiano era sempre em par: o café, a dor de cabeça, o silêncio da noite, o ronco do outro, a mão procurando a outra mão mesmo dormindo.

Havia, inclusive, uma música tema. Não das que tocam no rádio, mas daquelas que se escutam por dentro. Um samba-canção antigo, que falava de promessas e despedidas. Tocava no rádio quando se conheceram, nos idos de 1975, e nunca mais saiu do fundo da memória.

E de repente, não mais.

Ele se foi. Rápido. Cruel. Dramático. Nos braços dela — como quem diz: cuida disso aí agora, que eu não dou mais conta. E ela cuidou. Do corpo. Do velório. Das burocracias. Do que sobrou. Mas ninguém ensina como se cuida do que falta.

A casa se encolheu. Os móveis pareceram estranhos, como se ela tivesse invadido a vida de outra pessoa. A chaleira apitava sem ninguém para rir da mania de esquecer no fogo. Os chinelos dele permaneceram uma semana no mesmo lugar. Depois, ela os guardou. Não por desapego, mas por pudor.

O luto era um bicho. Roía. Miava. Uivava. Às vezes lambia sua cara feito cão amigo, outras vezes mordia a garganta de surpresa, no meio do supermercado. Pensava tanto que os neurônios fritavam. Tentava entender por quê. Por que ele, por que agora, por que assim? Mas as perguntas não têm pernas: ficam no mesmo lugar, rodando em círculo.

Começou a vagar. Literalmente. Com um casaco velho e os sapatos baixos que ele não gostava — “parece sapato de uma bonequinha”, ele dizia, e ela ria. Agora, usava-os como quem veste uma lembrança.

Entrava em lugares onde nunca tinha ousado. Restaurantes e cafeterias que cheiravam a perfume velho e café queimado, praças onde só os esquecidos conversavam. Às vezes parava diante de vitrines como quem observa um filme estrangeiro sem legenda. Outras vezes entrava em igrejas vazias só pra ouvir o eco dos próprios passos.

E foi num desses antros de silêncios que a viu.

Sentada num canto, a outra mulher bebia um café frio como quem saboreia o fim do mundo. Tinha os olhos fundos, o cabelo bagunçado e um ar de quem tinha largado tudo, até a dignidade. Usava um batom escuro borrado, um lenço no pescoço que parecia ter vindo de algum passado glorioso, e uma bolsa gasta que pendia do ombro feito saudade.

Puxaram conversa como duas vira-latas farejando a mesma tristeza.

Ela também tinha perdido. Outro nome, outra história. Mas o mesmo buraco no peito. Também viera de um casamento longo. Também perdera sem entender. Também andava por aí tentando achar sentido no que sobrou.

Foi estranho e bonito. A familiaridade não veio do que disseram, mas do que não precisaram dizer. O silêncio entre as frases tinha gosto de confiança. De reconhecimento.

Foram se encontrando. Primeiro nas palavras, depois nos silêncios. Descobriram que, mesmo depois de tanto tempo amando com dois corações, era possível reaprender a bater com um só. Meio descompassado, às vezes. Mas pulsando.

Começaram a andar juntas. Às vezes até caladas, só dividindo o mesmo caminho, o mesmo banco de praça, o mesmo pôr do sol. Não fizeram planos. Não deram nome. Não chamaram de amizade, nem de salvação. Apenas andavam lado a lado. Um passo de cada vez. Cansadas, sim. Mas vivas.

E havia algo de antigo naquele vínculo. Como nos filmes em preto e branco. Como na poesia do Vinicius, nos discos de Nara, nos bares com espelhos manchados e garçons de paletó. Um tipo de afeto que não exigia moldura, nem definição.

Começaram a escrever — sem saber — um outro tipo de companhia. Uma que não exige pertencimento. Que não promete futuro. Que não preenche o vazio, mas também não se assusta com ele.

Vira-latas sem dono. Mas com faro apurado pra reconhecer afeto quando ele aparece — mesmo debaixo da chuva.

Fim?

Talvez não. Talvez só mais um capítulo em aberto. Porque tem histórias que não precisam de ponto final. Basta uma vírgula — e um respiro.



Silvia Marchiori Buss

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