Somos Pedras Lapidadas

Diante do tempo, da vastidão do céu e da sabedoria silenciosa das árvores, o ser humano costuma se imaginar o centro. Acredita-se senhor do mundo, porque pensa. Mas o pensamento, tantas vezes, serve apenas para inflar o ego, não para expandir a alma.

Vivemos como se a natureza fosse coadjuvante em nosso espetáculo pessoal. Olhamos para os outros seres vivos com superioridade, esquecendo que respiramos o mesmo ar, bebemos da mesma água, dependemos do mesmo solo. Ao invés de estender a mão, impomos. Ao invés de aprender com o simples, complicamos.

Dizem que somos os únicos seres capazes de pensar. Mas pensar sem sentir não é vantagem — é risco. A mente que se coloca acima da vida torna-se máquina de destruição. E o ego, essa lente distorcida que só enxerga o próprio reflexo, nos afasta daquilo que realmente nos diferencia: a consciência da interdependência, da fragilidade, do mistério que pulsa em tudo.

Entre os animais, há laços. Há proteção mútua, há sinais de afeto e alerta, há defesa do grupo. Não se vê a matança entre iguais com a frieza que os humanos praticam. Somos capazes de grandes amizades, mas também de crueldades calculadas. Em nome do poder, da posse, da ideia de "eu" acima do "nós", rompemos pactos invisíveis que a própria natureza respeita.

Somos, sim, pedras lapidadas. Mas ainda pedras. Carregamos arestas, pesos antigos, vaidades que nos cegam. A lapidação é um processo, nunca uma obra concluída. E talvez, no fundo, sejamos apenas um pouco mais polidos do que as criaturas que desprezamos. Não melhores. Apenas diferentes.

Quanto mais alto o ego, mais fundo o abismo. Enquanto não entendermos que nossa verdadeira força está em agir com alma — e não com vaidade — continuaremos a estragar o que poderia ser belo, a piorar o que poderia ser cura.

A pedra bruta tem sua beleza. A lapidada, também. Mas nenhuma delas existe sozinha.

Silvia Marchiori Buss

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