Somos Ilhas

Cada um de nós é um território único, com suas paisagens internas feitas de memórias, sonhos, cicatrizes e esperanças. Carregamos praias de afeto, onde os vínculos repousam como conchas deixadas pelo tempo; montanhas de desafios que escalamos em silêncio; florestas de pensamentos que crescem e se entrelaçam. Ventos de esperança sopram, às vezes suaves, outras vezes impetuosos, renovando o ar e soprando folhas secas da alma.

Mas nenhuma ilha existe sem o mar.

A água que nos cerca — feita de relações, circunstâncias, afetos e trocas — espelha o que projetamos. É um espelho vivo e instável que nos responde. Se cultivamos alegria, autoestima e generosidade, atraímos mares límpidos. Ondas suaves nos visitam com ternura, trazendo à tona novas possibilidades, conexões sinceras, encontros que aquecem.

Por outro lado, se nos deixamos enredar pelo medo, pela mágoa ou pelo ressentimento, a correnteza se torna espessa. O mar ao redor escurece, não por vingança, mas por ressonância. Ele não nos pune — apenas reflete. E navegar nesse mar torna-se exaustivo, como remar contra o próprio reflexo.

O mar não é nosso, mas nos pertence por instantes. Ele vem e vai, dança à nossa volta, mas nunca se fixa. Traz e leva, enche e esvazia. Alimenta com sua abundância, mas também testa nossa resistência com suas tempestades. Somos o solo onde ele bate, mas também o olhar que o compreende.

Nossa ilha pode ser abrigo ou deserto. Cabe a nós decidirmos o que semear nesse chão. Se plantarmos cuidado, escuta, presença e amor, mesmo nas estações mais áridas, brotará algo que atraia águas vivas. Mas, se construirmos muros altos demais, negando a troca, o mar pode nos esquecer por um tempo — e ser esquecido também dói.

Que nossas ilhas não sejam apenas terras isoladas no vasto oceano da existência, mas pontos de luz, onde viajantes cansados possam ancorar por um instante. Que sejamos faróis, mesmo com luz frágil, apontando direções, oferecendo calor.

E que possamos, sobretudo, compreender as marés. Elas sempre mudam. Às vezes nos afastam, outras vezes nos invadem. Mas nunca deixam de vir. Que sejamos como a areia: capazes de acolher o vai e vem das águas sem perder nossa essência.

Porque, no fim, somos ilhas...

Mas ilhas que sonham com pontes, ilhas que dançam com as ondas, ilhas que, no fundo, também são mar.




Silvia Marchiori Buss

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Energia na Parede

Navegando na Ausência

O Silêncio da Professora