Reorganizando Meus Dias...

 Há momentos em que a vida, delicadamente ou de forma abrupta, nos pede pausa. Como quem vira a página de um livro sem avisar, somos chamados a repensar a rotina, a escutar o silêncio, a notar os pequenos movimentos do tempo. Foi assim comigo. Um dia, percebi que os dias estavam passando por mim – e não mais comigo.

Reorganizar meus dias não foi um gesto prático, desses que cabem em planilhas ou listas de tarefas. Foi, antes, um exercício de escuta. Escuta do corpo cansado, da mente dispersa, do coração apertado. Escuta dos afetos que se desfiaram com o tempo, da saudade que se acomodou num canto da sala, das vontades que há muito eu deixava para depois.

Voltar a sentir prazer no café da manhã, por exemplo, foi um passo importante. Permitir-me o tempo de olhar o céu antes de abrir o celular. Trocar o piloto automático pela presença real. Às vezes, isso significa simplesmente respirar mais fundo antes de responder uma mensagem. Outras, aceitar que tudo bem não dar conta de tudo – e que o mundo não desmorona quando escolho cuidar de mim.

Meus dias, agora, têm outras cores. Não porque a vida se tornou mais leve – mas porque eu mudei o jeito de habitá-la. Reorganizar, percebo, é recomeçar. Não de onde parei, mas de quem sou hoje. E tudo bem se for aos poucos.

É um gesto de gentileza comigo mesma. Um processo contínuo de acolhimento, em que aprendo a fazer as pazes com os meus próprios ritmos. Há beleza em não apressar a primavera, em respeitar o tempo da semente até a flor.

E assim vou seguindo, um dia de cada vez, reconstruindo um cotidiano que faça sentido, que me abrace com calma e me devolva, aos poucos, o prazer de estar inteira.

Silvia Marchiori Buss

 

 

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