O Pêndulo Entre o Mundo e EU
Vivemos num vai e vem constante. Um pêndulo. Um movimento silencioso, às vezes imperceptível, entre o que está fora e o que pulsa dentro de nós.
Há dias em que o mundo lá fora
parece nos acolher — as conversas fluem, o tempo anda num compasso possível, as
coisas fazem sentido. Mas há outros em que tudo parece deslocado. O excesso, a
velocidade, a desordem... Quando o fora se torna estranho, denso, barulhento
demais, é sinal de que é hora de recolher-se. De fechar os olhos para enxergar
melhor. De voltar ao centro.
É nessa hora que a gente percebe:
se não soubermos quem somos, se não
soubermos nos escutar, nos acolher, nos habitar... nos perdemos. Do outro. Do
todo. Da própria alma.
Antes, a vida tinha outro ritmo.
Era como entrar numa locadora e escolher o que se queria ver. Um filme por vez.
Um gênero por vez. Fantasia na sexta à noite, drama no domingo chuvoso, romance
quando o coração pedia. Havia pausa. Havia espaço para o tédio, para a espera,
para o silêncio.
Hoje não. Hoje vivemos tudo ao
mesmo tempo. A fantasia, o drama, a tragédia e a comédia se atropelam em uma
única manhã. A informação nos alcança antes mesmo de abrirmos os olhos. Somos
bombardeados por vozes, imagens, opiniões, cobranças, notícias — e tudo exige
urgência. A nova locadora do mundo é infinita e nos prende em suas prateleiras
virtuais, onde não se escolhe mais o que assistir: tudo nos assiste. Tudo nos
invade.
Estamos todos um pouco exaustos.
Um pouco atordoados. Um pouco perdidos nesse movimento pendular.
É fácil se perder quando tudo lá
fora grita. Quando tudo parece importante. Quando tudo nos empurra para fora de
nós. Mas é aí que mora o segredo: se não criarmos um refúgio interno, um espaço
sagrado onde possamos nos sentar conosco mesmos, seremos levados pelo
turbilhão. O pêndulo baterá com força, e não saberemos mais de que lado
estamos.
Estar confortável dentro de si
mesmo virou um gesto revolucionário. Aprender a silenciar, a se escutar, a se
acolher, a se permitir sentir — sem pressa, sem performance, sem palco — é
quase um ato de resistência.
Não se trata de fugir do mundo,
nem de negar o que acontece lá fora. Mas sim de não se dissolver nele. De não
se tornar apenas mais uma peça na engrenagem. Porque só quem sabe habitar o
próprio ser consegue atravessar as tormentas do mundo sem se desintegrar.
O pêndulo continuará seu vai e
vem — é da natureza da vida. Mas que possamos aprender a estar firmes no
centro, onde a oscilação quase não se sente. Onde tudo é mais claro. Onde a
gente, enfim, se reconhece.
Silvia Marchiori Buss
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