O Mistério do Reencontro
Há dias em que acredito, com a serenidade dos que já viram de perto o invisível, que todos nos reencontramos. Que há um tempo além do tempo, um lugar sem mapas, onde as almas se reconhecem por aquilo que pulsa – e não pelo que vestiam de carne. Imagino encontros silenciosos, onde um olhar que não é olho, um gesto que não é mão, basta para saber: “é você”. Como se a essência, livre da matéria, vibrasse na mesma frequência de outrora. Como se o amor, desatado da forma, fosse suficiente para o reencontro.
Mas há dias em que a bióloga em
mim se impõe. Aquela que conhece a fragilidade das células, o destino dos
corpos, a lei implacável da decomposição. Sei que tudo se transforma, como
disse Lavoisier, e que nada se perde – mas também não se recupera do mesmo
modo. A energia se dispersa, a matéria retorna ao ciclo, e não há, nos tubos de
ensaio, vestígios da alma.
E, ao passar do tempo, não
consigo deixar de pensar: se tudo se transforma, por que não o amor? Talvez ele
persista em outra forma, em outro campo, em outro plano. Talvez aquilo que
chamamos de alma seja justamente essa porção de nós que não se mede, não se vê,
mas insiste em permanecer.
Fé e ceticismo travam sua dança
dentro de mim. Uma chama bruxuleante e uma lupa científica se revezam na
vigília dos meus pensamentos. E, no centro desse duelo silencioso, repousa o
mistério – não como algo a ser resolvido, mas como um espaço sagrado, onde o
que não sei pode simplesmente ser.
Se há reencontro, que seja além
das formas. Se não há, que o amor que vivi me baste como eternidade.
Silvia Marchiori Buss
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