Metamorfoses
Às vezes penso que queria ser uma borboleta.
Não pela leveza com que voa, nem pelas cores que
hipnotizam olhares — embora isso também tenha seu encanto. O que me fascina
mesmo é a coragem. A audácia silenciosa de aceitar cada metamorfose. A
borboleta, esse ser frágil e efêmero, conhece os extremos: da imobilidade do
casulo à dança no vento. Vive inteira cada etapa, sem resistir ao inevitável.
Antes de abrir asas, rasteja. Sente a dureza do chão, o
peso do próprio corpo. Ainda assim, segue. Alimenta-se do que encontra,
sustenta-se como pode, enquanto o invisível dentro dela se prepara para o
próximo passo.
Não há aviso. Um dia, tudo para. Ela se recolhe. Torna-se
quase nada. Um casulo. Um silêncio que por fora parece morte, mas por dentro...
é revolução.
Quem vê de fora talvez julgue fraco esse intervalo. Longo
demais. Escuro demais. Mas o que ali se transforma não precisa de plateia.
É desse tempo que nascem as asas.
Quisera eu confiar assim nos meus próprios processos.
Quisera acolher com a mesma inteireza os momentos em que não sou flor, nem vôo,
nem cor. Apenas espera. Quisera aceitar que dor também é parte da dança — e
que, mesmo quando tudo parece ruína, há algo em mim desenhando um outro jeito
de ser.
Se a vida tem sido casulo, que não seja em vão.
Que da dor, do silêncio, da ausência e do cansaço surja —
sem pressa — uma nova forma de existir. Talvez mais simples. Talvez mais bela.
Talvez apenas mais verdadeira.
E quando for tempo, que eu saiba abrir asas.
Silvia Marchiori Buss
Silvia Marchiori Buss
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