Jogando Conversa Fora
O calor ainda ondulava nas calçadas quando Teresa e Lourdes arrastaram suas cadeiras de palha para a sombra da mangueira. Era aquele fim de tarde abafado, típico de janeiro, em que o suor brota antes mesmo do corpo se mexer.
Sentaram-se como de costume, uma de frente para a outra, os leques improvisados de papelão nas mãos, os chinelos batendo ritmados no chão poeirento. Era o ritual silencioso das duas, conversas jogadas, miudezas do bairro, lembranças que o calor parecia puxar da memória como vapor de chaleira.
— Mulher, você viu a nova moça que se mudou na casa da esquina... — comentou Lourdes, abanando-se com mais vigor. — Dizem que é filha daquele homem... como é mesmo o nome dele... Aquele que tocava saxofone nos bailes...
Tereza sorriu de canto. Gostava desses papos que começavam do nada e podiam ir parar em qualquer lugar.
— Seu Agenor. — Completou. — Tinha um sorriso safado, mas um talento que só vendo...
O céu se tingia de laranja e púrpura quando a conversa, entre uma fofoca e outra, tropeçou no nome Clóvis – o falecido marido de Tereza.
— Sabe, às vezes penso que o Clóvis deve estar dando risada da minha cara lá do outro lado. — disse Tereza, com um riso sem alegria. — Achava que sabia tudo sobre ele, mas hoje mesmo mexendo nas tralhas do sótão... encontrei uma carta.
Lourdes ajeitou-se na cadeira, os olhos semicerrados de curiosidade.
— Que carta, mulher... De quem...?
Tereza demorou a responder. Olhou para o horizonte, onde as últimas aves cruzavam o céu feito sombras apressadas.
— De uma mulher. Assinada só com a inicial “M”. — a voz dela quase sumia no crepúsculo. — Amor da minha vida, dizia. Promessas de encontros, palavras que eu nunca ouvi da boca dele.
O calor pareceu mais denso entre elas. Lourdes apertou o leque contra o peito, incerta do que dizer.
— Às vezes, a gente vive com uma pessoa uma vida inteira... — murmurou ela, enfim — e ainda sabe só metade dela.
Tereza sorriu, um sorriso triste e sábio.
— Pois é, Lourdes. Achei que fosse dor o que ia sentir. Mas sabe o que bateu mais forte...? Pena. — Suspirou. — Pena por ele ter precisado esconder algo tão grande... até de mim.
O silêncio se estendeu entre elas, confortável e pesado ao mesmo tempo, como as noites de verão.
O calor seguia grudado nas paredes, nas roupas, na pele. Mas entre as duas, naquela calçada esquecida do mundo, havia algo novo: a descoberta de que nem a morte encerra todas as histórias. Algumas continuam, mudas e escondidas, até que a vida, por descuido ou destino, resolve trazer à tona.
Silvia Marchiori Buss

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