Dias de Não Acordar

Tem dias em que o corpo não se move.

Não por preguiça ou cansaço, mas por ausência.
Como se alguma parte essencial tivesse ido embora durante a noite —
um pedaço da alma, um suspiro antigo, a lembrança de um toque.
O dia amanhece, mas dentro de nós permanece escuro.

A cama vira abrigo.
Os lençóis, fronteira segura entre o que se sente e o que o mundo exige.
Aninhar-se ali é um gesto de resistência —
não ao tempo, mas à dor que ele insiste em arrastar consigo.

Nesses dias, a saudade não é palavra:
é ausência concreta.
É o coração murcho,
os ossos que parecem prestes a ruir,
os ombros que se curvam, não de cansaço, mas de defesa.
Tentam guardar o que restou de amor, de memória, de presença.
Como se protegendo isso, pudesse evitar que tudo escorresse em lágrimas.
Ou, pior, que se espalhasse e perdesse o contorno.

Porque há dores que não queremos dividir.
Não por egoísmo, mas por pudor.
Elas são íntimas como a roupa de dormir,
como o cheiro que ficou no travesseiro.
Compartilhar seria despir-se demais.

E então a gente fica.
Silenciosa. Encolhida.
Como quem guarda uma chama pequena num dia de vento.

Não há poesia no sofrimento.
Mas há beleza em sobreviver a ele,
mesmo que seja assim —
deitada, em silêncio, fingindo que o dia ainda não acordou.

Silvia Marchiori Buss

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