Como Vai Você

Essa pergunta ressoava como um eco constante na mente de Elisa. Desde que Marcos partira sem aviso, sem explicação, sem despedida, ela se via perdida em um mar de incertezas. Tudo o que restava era o vazio de uma mensagem que não chegou, de um telefonema que nunca foi feito, de um toque que se perdeu no tempo.

"Como vai você?" Uma frase simples, quase banal, que agora carregava um peso insuportável. Era a pergunta que ela desejava fazer e, ao mesmo tempo, temia. Como perguntar isso a alguém que sumiu? A alguém que escolheu partir e deixar apenas silêncio?

Elisa revivia os momentos em que eles riam juntos, os planos feitos para o futuro, as conversas intermináveis sobre tudo e nada. Não havia sinais de que algo não estava bem. Pelo menos, não para ela. E agora, tudo o que tinha eram memórias que doíam como farpas fincadas na pele.

Ela tentava imaginar onde ele estava. O que fazia? Como estava sua vida? Ele pensava nela? Sentia saudades? Ou já tinha apagado cada lembrança, como se ela fosse um capítulo irrelevante de um livro que ele preferiu esquecer?

Por vezes, Elisa pegava o celular, digitava o início de uma mensagem e apagava antes de terminar. As palavras pareciam pequenas demais para conter tudo o que sentia. Outras vezes, caminhava até a caixa de correio, na esperança irracional de encontrar uma carta, um sinal, qualquer coisa que quebrasse aquele abismo de silêncio.

Mas a pergunta continuava ali, pulsando em sua mente, crescendo como uma semente de angústia. "Como vai você?" Era um grito contido, uma tentativa de reconstruir a ponte que ele queimara ao partir. E, talvez, uma forma de acalmar a própria alma, que buscava respostas onde havia apenas escuridão.

No fundo, Elisa sabia que aquela pergunta não era apenas sobre ele. Era sobre ela também. Porque, enquanto Marcos continuasse ausente, enquanto o silêncio fosse sua única resposta, ela não sabia mais como ia. Nem para onde ir.

Naquela tarde, o sol entrava pela janela da sala, tingindo as paredes de um dourado quente que contrastava com o frio que ela sentia por dentro. Elisa sentou-se no chão, rodeada por caixas de lembranças. Fotografias, bilhetes escritos à mão, pequenas coisas que um dia haviam tido valor para os dois. Segurou um bilhete antigo onde Marcos havia escrito:

"Hoje é o primeiro dia do resto de nossas vidas. Vamos fazer valer a pena?"

A ironia daquelas palavras a fez sorrir amargamente. O que teria acontecido para que ele desistisse do que pareciam ser promessas tão sinceras? A falta de respostas era como um labirinto que a aprisionava, e cada objeto naquela caixa parecia uma chave que não abria porta alguma.

Inspirada por uma faísca de coragem ou desespero, Elisa pegou papel e caneta. Se ele não iria responder, então talvez fosse hora de escrever para si mesma. De responder à pergunta que tanto ecoava em sua mente. Lentamente, começou a escrever:

"Como vai você, Elisa? Ainda pensa nele? Ainda espera por algo que talvez nunca venha? Você é mais do que as lembranças de quem partiu. Você é mais do que a dúvida, o medo e a solidão. Você é a pessoa que ficou, que lutou contra a maré, que se manteve de pé mesmo quando o mundo parecia ruir. Então, como você vai? Você vai. E isso é o suficiente por hoje."

Ao terminar, uma lágrima escorreu pelo rosto de Elisa. Depois de vários meses, sentiu que havia encontrado uma resposta — não para Marcos, mas para si mesma. Dobrou o papel, guardou-o junto aos bilhetes antigos e fechou a caixa. O sol ainda brilhava, e ela percebeu que talvez, apenas talvez, pudesse encontrar um novo caminho. Não sem dor, mas com coragem suficiente para seguir em frente.



Silvia Marchiori Buss

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