Como Vaga-Lumes e Estrelas

Na noite clara, os vaga-lumes vagam em silêncio, confundindo seu brilho miúdo com o das estrelas. Não é fácil distinguir onde termina a luz de um e começa a do outro – como se, por um instante, o céu e a terra conversassem em faíscas.

Assim somos nós: criaturas feitas de lampejos. Carregamos alegrias e dores que raramente vêm separadas. Uma se encosta na outra, se embaralham. Rimos com a lembrança de algo triste. Choramos ao lembrar um momento feliz.

Não somos feitos de emoções puras – somos compostos por misturas. E talvez seja justamente aí que mora nossa verdade: na confusão entre o que dói e o que salva, no vaivém das luzes que se acendem e se apagam dentro de nós.

Como os vaga-lumes, seguimos, dançando entre as sombras e as estrelas, acreditando que há beleza mesmo quando tudo parece apenas escuridão.

Não precisamos – e talvez nem devêssemos – ser só alegria ou só tristeza, somos sempre os dois pontos, esse intervalo tenso e delicado entre extremos.

A alegria pura, constante, cansa e se esvazia de sentido. A tristeza absoluta nos afunda até que não reste mais fôlego. Mas o entre – esse intervalo onde a vida realmente acontece – é o que nos mantém.

É aí que moram os pequenos gestos: um café preparado sem motivo, um silêncio compartilhado, uma lembrança que dói e aquece ao mesmo tempo.

A gente vive nesse meio-fio, nessa margem em que a lágrima e o riso se confundem, como os vaga-lumes e as estrelas. Não precisamos escolher um lado. Não fomos feitos para caber numa só emoção.

O que somos, afinal, senão essa dança entre luzes frágeis? Um corpo que se move entre perdas e encontros, entre ausências e presenças, tentando não se perder de si mesmo.

Silvia Marchiori Buss

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