Como uma Nuvem

A vida e a morte não são opostos em guerra. São irmãs de silêncio, lado a lado num campo onde o tempo perde nome. Uma se anuncia no nascimento; a outra, na despedida. Mas ambas fazem parte da mesma travessia. E talvez seja isso que tanto nos perturba: não há uma fronteira nítida entre estar e deixar de estar. Existe um sopro, um intervalo tênue — e por vezes sublime — como o traço esmaecido de uma nuvem prestes a se desfazer.

Não é raro sentirmos, num instante de distração, a presença de quem já se foi. Não como lembrança, mas como se a alma dele ainda pulsasse no espaço entre dois gestos nossos. Uma palavra que sai de nossa boca sem que saibamos de onde veio, um silêncio que carrega um perfume conhecido, uma sensação que atravessa o corpo feito brisa morna. É o que não se explica, e ainda assim acontece. Como se a morte não soubesse nos arrancar por inteiro do mundo. Como se fôssemos feitos de mais do que carne — e a parte imaterial continuasse a percorrer as margens de quem ama.

Talvez não exista ausência plena. Talvez o que chamamos de “perda” seja, antes, um deslocamento. Um tipo de presença que não se pode tocar, mas que nos toca. Não se trata de consolo, tampouco de esperança — palavras que, por vezes, tentam simplificar o indizível. Trata-se de reconhecer que há uma continuidade onde costumamos ver ruptura. A vida, ao ceder espaço à morte, não se apaga. Ela muda de linguagem.

Aqueles que partem nos observam de uma fresta que não sabemos nomear. E nós, os que ficamos, seguimos vivendo à beira dessa fresta. Entre a matéria e o invisível, entre o agora e o intangível. E se olharmos bem, talvez percebamos que o tempo que acreditamos separado é, na verdade, simultâneo. Como um sopro que ainda paira no ar mesmo depois do silêncio. Como uma nuvem que, mesmo desfeita, deixa seu contorno suspenso no céu por mais um instante.

Não há distância. Apenas outra forma de estar.

Silvia Marchiori Buss

 

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