A Vida Não Pede Licença

A vida não consulta ninguém. Não bate na porta, não deixa bilhete, não explica as regras. Ela simplesmente vai. Anda por trilhas que não traçamos, dobra esquinas sem avisar, tropeça em nossos planos com a A leveza de quem não tem culpa.

Você pode querer parar. Pode sentar-se no meio do caminho e cruzar os braços, esperando que tudo faça sentido. Mas ela segue. Respira, arfa, pulsa dentro de nós — mesmo quando não queremos mais acompanhar. Mesmo quando já não entendemos para onde estamos indo.

Não somos os donos da própria vida. Essa ideia romântica de que basta decidir, escolher, planejar — é bonita, mas frágil. Há forças que nos atravessam sem pedir opinião. O tempo, o acaso, as perdas, os encontros. A dor e a beleza de existir nos arrastam, como correnteza mansa ou fúria de rio em cheia.

E a gente vai, aos trancos. Tentando entender. Tentando acompanhar. Às vezes protagonistas, às vezes apenas espectadores de nós mesmos, como se assistíssemos à nossa história sendo escrita por mãos invisíveis. Resta aprender a ler os sinais, recolher os cacos, abraçar o que ainda vibra — e seguir.

Porque viver não é ter o controle. Viver é não saber, e ainda assim continuar.

Continuar mesmo quando tudo parece ruir, mesmo quando os dias repetem silêncios ou barulhos demais. Continuar sem garantias, sem roteiro, sem manual. E às vezes, sem ninguém do lado para traduzir o caos.

Há momentos em que tudo o que conseguimos fazer é respirar. E isso já é muito. É nesse respiro, nesse pequeno ato involuntário, que a vida se impõe — mesmo que a gente não queira, mesmo que doa. É ali que ela se mantém viva em nós, enquanto decidimos se ainda acreditamos nela ou não.

Tem horas que parecemos passageiros de um corpo cansado, observando as coisas acontecerem lá fora, sem conseguir mover uma vírgula dentro. E está tudo bem. Há dias em que ser expectador é o máximo que conseguimos. E mesmo assim, a vida passa — e nos leva junto.

Não há como domá-la. Não se doma o vento, nem o tempo, nem o que pulsa sem trégua dentro do peito. Mas talvez, entre um tropeço e outro, a gente aprenda a dançar com ela. Sem coreografia. Só presença.

A vida não quer ser decifrada. Ela quer ser sentida. Mesmo que isso, às vezes, doa mais do que gostaríamos.

Silvia Marchiori Buss

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