Carnaval: O Riso e a Lágrima do Pierrot
O Carnaval explode em cores, ritmos e euforia. Ruas se enchem de foliões, sorrisos se multiplicam, e a vida, por alguns dias, parece dançar em sintonia com os tamborins. É uma festa do excesso, onde a alegria se impõe como regra absoluta, como se o mundo, com suas dores e tragédias, pudesse ser deixado de lado. Mas, por trás da máscara vibrante do Carnaval, não há também o lamento de um Pierrot?
O Pierrot, personagem da Commedia dell’Arte que atravessou
séculos e encontrou morada nos salões e avenidas do Carnaval, ri com os lábios
pintados de branco, mas seu coração chora. Assim também somos nós, muitas
vezes. Enquanto o samba ecoa alto, há aqueles que seguem sua marcha silenciosa
de dor: os que perderam alguém, os que enfrentam injustiças, os que não têm
sequer forças para levantar da calçada onde a folia pisa sem ver.
O mundo lá fora segue girando em seu caos: guerras, fome,
desigualdades gritantes. Para alguns, a festa é um intervalo necessário, uma
resistência à dureza do cotidiano. Para outros, é apenas um espetáculo
distante, uma felicidade que não lhes pertence.
E, no entanto, há algo de profundamente humano nessa
dualidade. O Carnaval nos ensina a rir, mesmo quando por dentro carregamos o
peso do choro. Ele nos dá máscaras, não para esconder, mas para revelar esse
paradoxo que nos habita: a alegria possível no meio da tristeza, a dança que
desafia a melancolia, o riso que, às vezes, é apenas um disfarce da lágrima.
E assim seguimos, como Pierrots modernos, brincando de
felicidade enquanto, no fundo, ainda carregamos nossas dores. Porque a vida é
essa eterna dança entre a festa e o luto, entre o riso e o pranto. E talvez
seja justamente isso que faz do Carnaval a mais humana de todas as celebrações.
Silvia Marchiori Buss
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