Alma Viva

Na casa, o silêncio se estendia com densidade, como se o ar se recusasse a perturbar a quietude das paredes que, em sua solidez, sustentavam um equilíbrio tênue.

Laura passava os dedos pela mesa de madeira, percebendo as marcas do tempo – linhas que registravam dias repletos de histórias não contadas. Ao lado, uma xícara com vestígios de café e um livro de páginas amareladas, preenchido por anotações apressadas, formavam um cenário de intimidade e memória.

Na varanda, acomodou-se em uma cadeira de balanço e fechou os olhos, permitindo que o calor suave do vento da tarde lhe acariciasse o rosto. Em meio à brisa, recordava Miguel: seu sorriso sereno, os gestos discretos, a forma como fazia da vida algo palpável. As palavras que ele pronunciara em um instante de vulnerabilidade ecoavam em sua mente, não como fórmulas prontas, mas como um lembrete sutil do vínculo que os unira.

Conforme os dias se sucediam, a ausência se revelava em cada detalhe – o som raro de uma porta batendo, passos que não preenchiam mais os corredores, o aroma das roupas que se desvanecia lentamente. Laura se perguntava se, um dia, sua própria presença se esvairia na memória, assim como Miguel parecia reduzir-se a um sussurro interior.

Contudo, algo dele persistia – não como um ideal abstrato, mas na concretude dos momentos compartilhados. Toda manhã, ao abrir as janelas e deixar a luz inundar o ambiente, ela notava que certos instantes, por mais breves que fossem, permaneciam intactos na trama do tempo.

Numa noite, Laura sonhou - No jardim, sob a luz tímida da lua, Miguel aparecia, sereno, sentado num banco de madeira. Sua expressão era uma narrativa silenciosa que não necessitava de palavras. Ao tentar alcançá-lo, na ânsia de retomar o que o passado havia impresso nela, sua figura se desfez, como se o tempo estivesse reescrevendo sua forma.

Ao despertar, uma clareza inesperada a envolveu – não na promessa de um retorno ilusório, mas na compreensão de que Miguel habitava cada gesto, cada olhar que haviam compartilhado. Sua ausência física transformara-se na marca indelével de uma vida vivida em conjunto.

Laura sorriu. Com passos comedidos, caminhou até o jardim, onde a luz suave da lua delineava o velho banco de madeira. Ao sentar-se ali, sentiu o contraste entre o frio do metal e o calor remanescente das lembranças, num encontro discreto e singular.

Miguel não se resumia a clichês; ele era a prova viva de que cada instante, por mais efêmero que pareça, deixa um traço que molda a alma – e nessa marca, a própria vida de Laura continuava a se construir.

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Silvia Marchiori Buss

 

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