Águas Traiçoeiras
A vida é um rio, sinuoso e imprevisível. Em alguns trechos, suas águas são límpidas, refletindo o céu azul e as folhas que dançam ao vento. Mas nem sempre corre assim, tranquila e serena. Há momentos em que o leito se estreita, as correntezas se intensificam e as águas se tornam turvas, ocultando o que há no fundo.
São nesses trechos traiçoeiros que nos vemos à mercê do
inesperado. O chão firme desaparece, e o controle escapa das mãos como areia
fina. Quem nunca se sentiu arrastado por uma correnteza impiedosa, tentando
nadar contra um destino incerto? Quem nunca foi surpreendido por um remanso
disfarçado, que parecia seguro, mas escondia redemoinhos prontos a puxar para
as profundezas?
A vida nos lança desafios que testam nossa resistência. Há
dias em que nos vemos em meio a tempestades avassaladoras, onde a chuva castiga
sem piedade e os raios cortam o céu, iluminando apenas por breves instantes o
que parece ser um caminho sem saída. Nessas horas, enfrentamos perdas
dolorosas, despedidas inesperadas e feridas que parecem não cicatrizar.
Outras vezes, a corrente nos carrega para águas
desconhecidas, onde não há margem à vista e a solidão pesa como âncora. São os
momentos em que a incerteza sobre o futuro nos afoga em dúvidas, quando os
planos se desfazem como folhas levadas pela correnteza. A traição, a desilusão
e o medo do fracasso são os troncos submersos que podem nos derrubar sem aviso.
E, no entanto, seguimos. Porque o rio não para. Ele avança,
moldando as margens, desviando de pedras, esculpindo o seu próprio caminho. As
águas turvas não duram para sempre. Eventualmente, a força da corrente as
purifica, e podemos ver, outra vez, o reflexo do sol sobre a superfície.
Cada obstáculo superado nos ensina a nadar melhor, a
respeitar a força das águas e a confiar em nossa capacidade de emergir, mesmo
quando tudo parece nos puxar para baixo. Aprendemos a agarrar galhos firmes
quando necessário, a esperar a tempestade passar, a reconhecer quando é hora de
soltar e deixar que a corrente nos leve para um novo começo.
A vida, como o rio, é um fluxo contínuo. Há riscos e
desafios, mas também há beleza nas curvas inesperadas, aprendizado nos tropeços
das águas e força em quem se permite seguir, apesar das tempestades.
Porque, no fim, mesmo os rios mais traiçoeiros encontram seu
caminho até o mar.
Silvia Marchiori Buss
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