Um Lado da Lua
Ana e Sônia se conheceram aos sete anos, no pátio de uma escola empoeirada de uma pequena cidade. Desde então, compartilhavam o que chamavam de "um lado da lua", uma metáfora inventada para descrever segredos, risos e confidências que só elas conheciam.
Durante décadas, a vida foi um emaranhado de telefonemas diários, viagens improvisadas e apoio mútuo nos momentos difíceis: o divórcio de Ana e o luto de Sônia pela morte de um filho. Unidas, eram como dois pilares sustentando um templo invisível.
Quando completaram 70 anos, Ana começou a notar sutis mudanças em Sônia. De início, eram apenas esquecimentos: um compromisso aqui, uma data ali. Mas, com o passar dos meses, as alterações tornaram-se mais profundas. Sônia, outrora conversadeira e espirituosa, agora soltava frases desconexas, e seu humor oscilava entre doçura infantil e irritação inexplicável.
Ana a acompanhou a uma consulta médica, sentindo no peito o peso de um presságio. O diagnóstico veio como um golpe: demência frontotemporal. Não era apenas perda de memória; a doença corroía a essência de quem Sônia era, afetando seu comportamento, sua linguagem, sua capacidade de reconhecer o "lado da lua".
Ana mergulhou na tarefa de cuidar da amiga. Mudou-se para a casa de Sônia, aprendendo a lidar com os desafios diários: repetir explicações pacientemente, evitar que Sônia saísse sozinha e conviver com a dor de ser tratada, às vezes, como uma estranha. Mesmo assim, ela nunca deixou de trazer lembranças à superfície.
— Lembra daquela viagem para o Uruguai... — dizia Ana, enquanto ajudava Sônia a escovar os cabelos.
Sônia piscava, confusa, mas, em alguns raros momentos, seus olhos brilhavam, como se, por um instante, a bruma da doença se dissipasse.
Um dia, enquanto assistiam ao pôr do sol na varanda, Sônia segurou a mão de Ana e murmurou algo quase inaudível:
— O lado da lua... ainda está lá.
Ana engoliu o soluço e respondeu:
— Sempre esteve, Sônia. Sempre estará.
Nos meses seguintes, mesmo com a saúde de Sônia deteriorando, Ana continuou a encontrar pequenos lampejos da amiga de antes. Guardou todas as memórias como pedaços de um mosaico que construía sozinha, uma homenagem ao amor que transcende a mente, o tempo e a dor.
Quando Sônia finalmente partiu, Ana passou uma noite inteira olhando para a lua. Lá estava o lado que ninguém via, mas que ela sabia estar lá, intacto, eterno. O lado da lua que só pertencia a elas.
Silvia Marchiori Buss
Durante décadas, a vida foi um emaranhado de telefonemas diários, viagens improvisadas e apoio mútuo nos momentos difíceis: o divórcio de Ana e o luto de Sônia pela morte de um filho. Unidas, eram como dois pilares sustentando um templo invisível.
Quando completaram 70 anos, Ana começou a notar sutis mudanças em Sônia. De início, eram apenas esquecimentos: um compromisso aqui, uma data ali. Mas, com o passar dos meses, as alterações tornaram-se mais profundas. Sônia, outrora conversadeira e espirituosa, agora soltava frases desconexas, e seu humor oscilava entre doçura infantil e irritação inexplicável.
Ana a acompanhou a uma consulta médica, sentindo no peito o peso de um presságio. O diagnóstico veio como um golpe: demência frontotemporal. Não era apenas perda de memória; a doença corroía a essência de quem Sônia era, afetando seu comportamento, sua linguagem, sua capacidade de reconhecer o "lado da lua".
Ana mergulhou na tarefa de cuidar da amiga. Mudou-se para a casa de Sônia, aprendendo a lidar com os desafios diários: repetir explicações pacientemente, evitar que Sônia saísse sozinha e conviver com a dor de ser tratada, às vezes, como uma estranha. Mesmo assim, ela nunca deixou de trazer lembranças à superfície.
— Lembra daquela viagem para o Uruguai... — dizia Ana, enquanto ajudava Sônia a escovar os cabelos.
Sônia piscava, confusa, mas, em alguns raros momentos, seus olhos brilhavam, como se, por um instante, a bruma da doença se dissipasse.
Um dia, enquanto assistiam ao pôr do sol na varanda, Sônia segurou a mão de Ana e murmurou algo quase inaudível:
— O lado da lua... ainda está lá.
Ana engoliu o soluço e respondeu:
— Sempre esteve, Sônia. Sempre estará.
Nos meses seguintes, mesmo com a saúde de Sônia deteriorando, Ana continuou a encontrar pequenos lampejos da amiga de antes. Guardou todas as memórias como pedaços de um mosaico que construía sozinha, uma homenagem ao amor que transcende a mente, o tempo e a dor.
Quando Sônia finalmente partiu, Ana passou uma noite inteira olhando para a lua. Lá estava o lado que ninguém via, mas que ela sabia estar lá, intacto, eterno. O lado da lua que só pertencia a elas.
Silvia Marchiori Buss

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