Posso levar o chão?
Era uma menina linda, com olhos que pareciam conter toda a luz de um dia ensolarado e um sorriso tímido que revelava um mundo de sonhos e descobertas. Mas, por trás daquela beleza tão delicada, havia marcas que o tempo e as perdas haviam deixado. Perdera cedo os avós, figuras que lhe ofereciam um amor manso, aquele carinho que só os mais velhos sabem dar. E agora, enfrentava o vazio de outra ausência.
O garoto era especial, um amigo que, aos poucos, se tornara mais. Nos momentos compartilhados, a amizade fluía e, sutilmente, um amor doce e juvenil brotava entre os dois. Ela sentia o coração acelerar quando ele estava por perto, e bastava um olhar para que as palavras se tornassem desnecessárias. Ele a fazia rir, lembrando-a de que a vida, apesar das perdas, ainda tinha uma beleza pulsante.
Mas, então, num instante de caos que só o acaso pode criar, ele se foi. Um acidente de trânsito cruel e inesperado interrompeu o fio de suas vidas, levando-o para longe dela antes que tivessem a chance de compartilhar todos os dias que imaginavam.
A notícia veio pela voz da mãe. Quando entendeu as palavras, ela sentiu o chão sob seus pés. Literalmente. Despencou no solo. O chão, firme e gelado, acolhia seu pranto, seu corpo desfeito pela dor e, de algum modo, parecia entendê-la. O chão era sua testemunha silenciosa, o único que não fugia, que não partia, que não se desfazia como todos que ela amava. Ela conversava com ele, contando-lhe sobre o amigo, sobre as risadas, os sonhos e aquele amor nascente que jamais floresceria.
O tempo passou como passa para todos. Mas, para ela, o chão continuava ali, esperando-a, oferecendo-lhe o consolo mudo e a certeza de que, ao menos ele, estaria sempre ao seu lado. Até que, um dia, sua mãe a encontrou ali, sentada, olhando o chão como se observasse o próprio coração estilhaçado.
— Filha — disse a mãe, com um misto de ternura e preocupação —, está na hora de viver novamente.
A menina, já mais crescida pela dor, ergueu-se, e, com a voz embargada, perguntou:
— Posso levar o chão?
A mãe compreendeu a profundidade da pergunta. Percebeu que, naquele chão, a filha havia construído uma espécie de altar para os amores perdidos. Ali, no espaço frio e silencioso, repousavam os ecos de tudo que ela amara e perdera.
Então, com a força que só os sobreviventes possuem, a menina se levantou e partiu, levando consigo o amor, as memórias e a certeza de que, mesmo no silêncio e na dor, sempre haveria um chão para ela se apoiar.
Silvia Marchiori Buss
O garoto era especial, um amigo que, aos poucos, se tornara mais. Nos momentos compartilhados, a amizade fluía e, sutilmente, um amor doce e juvenil brotava entre os dois. Ela sentia o coração acelerar quando ele estava por perto, e bastava um olhar para que as palavras se tornassem desnecessárias. Ele a fazia rir, lembrando-a de que a vida, apesar das perdas, ainda tinha uma beleza pulsante.
Mas, então, num instante de caos que só o acaso pode criar, ele se foi. Um acidente de trânsito cruel e inesperado interrompeu o fio de suas vidas, levando-o para longe dela antes que tivessem a chance de compartilhar todos os dias que imaginavam.
A notícia veio pela voz da mãe. Quando entendeu as palavras, ela sentiu o chão sob seus pés. Literalmente. Despencou no solo. O chão, firme e gelado, acolhia seu pranto, seu corpo desfeito pela dor e, de algum modo, parecia entendê-la. O chão era sua testemunha silenciosa, o único que não fugia, que não partia, que não se desfazia como todos que ela amava. Ela conversava com ele, contando-lhe sobre o amigo, sobre as risadas, os sonhos e aquele amor nascente que jamais floresceria.
O tempo passou como passa para todos. Mas, para ela, o chão continuava ali, esperando-a, oferecendo-lhe o consolo mudo e a certeza de que, ao menos ele, estaria sempre ao seu lado. Até que, um dia, sua mãe a encontrou ali, sentada, olhando o chão como se observasse o próprio coração estilhaçado.
— Filha — disse a mãe, com um misto de ternura e preocupação —, está na hora de viver novamente.
Vem, vamos levantar, vamos à vida.
A menina, já mais crescida pela dor, ergueu-se, e, com a voz embargada, perguntou:
— Posso levar o chão?
A mãe compreendeu a profundidade da pergunta. Percebeu que, naquele chão, a filha havia construído uma espécie de altar para os amores perdidos. Ali, no espaço frio e silencioso, repousavam os ecos de tudo que ela amara e perdera.
Então, com a força que só os sobreviventes possuem, a menina se levantou e partiu, levando consigo o amor, as memórias e a certeza de que, mesmo no silêncio e na dor, sempre haveria um chão para ela se apoiar.
Silvia Marchiori Buss

Lindo conto! Cheio de ternura. Parabéns.
ResponderExcluirSeu comentário é um grande estimulo para mim! Obrigado por interagir!
ExcluirMaravilhoso 👏👏👏👏👏
ResponderExcluirConsidero muito e agradeço com carinho seu comentário.
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