Vivi

— Acorda, Adroaldo! Deixa eu abrir esse quarto, tá com cheiro de bebida! Que noitada foi essa, hein?Chamou Dona Terezinha, batendo à porta.

Adroaldo, ainda atordoado pelo efeito da noite anterior, sentiu o peso das palavras de Terezinha como um soco. Despertou, cansado e com um vago sentimento de insatisfação.

— Ah, essa vida... Murmurou para si, reconhecendo que sua realidade estava longe do que ele um dia havia imaginado.

O casamento com Terezinha, depois de quase quarenta anos, era uma convivência silenciosa, uma rotina sem grandes trocas ou afeto. Cada um seguia suas próprias rotas, convivendo sem que realmente compartilhassem a vida. O casal apenas se suportava, mantendo o que restava do que um dia fora uma união. E a situação se agravava ainda mais quando o assunto era o filho Vitinho.

Vitinho era um rapaz sensível, calmo, e que, em muitos aspectos, destoava do pai. Para Adroaldo, ele parecia distante das tradições que ele tanto prezava, o que sempre gerava atritos. Adroaldo queria que Vitinho fosse como ele, mas o filho caminhava por outros interesses e vivia segundo seus próprios valores. O contraste entre os dois causava desconforto, e Adroaldo frequentemente se irritava, descontando sua frustração em comentários rudes.

— Que desrespeito, pai! Dá pra tratar a mãe com mais consideração? Dizia Vitinho, que não suportava as atitudes do pai.

Mas Adroaldo ignorava, enquanto Terezinha tentava amenizar:

— Deixa, filho. Cada um acaba colhendo o que planta. Quem sabe um dia ele entende... Dizia ela, sempre com paciência.

A insatisfação acumulada, somada às diferenças com o filho e à distância no casamento, fizeram com que Adroaldo decidisse que precisava de uma mudança de ares. Ele queria algo diferente, um momento em que pudesse sentir-se vivo novamente. Folheando o jornal, seu olhar parou em um pequeno anúncio. Uma tal de Vivi, loira, oferecia companhia por um preço acessível. O convite lhe parecia irresistível.

— Isso tá pra mim, não vai afetar o orçamento. Murmurou para si, achando que a ideia era excelente.

Quando anoiteceu, Adroaldo se preparou como há muito tempo não fazia. Caprichou no banho e no perfume, vestiu uma roupa bem passada e saiu de casa sem que ninguém notasse. Estava determinado a encontrar Vivi e, por algumas horas, esquecer-se da rotina. Rumou ao endereço indicado no anúncio, certo de que viveria uma noite inesquecível.

Ao chegar ao local, foi recebido por uma senhora de modos extravagantes e voz forte. Ela o olhou de cima a baixo, examinando-o com um olhar sagaz, e ele apresentou o jornal, apontando o anúncio de Vivi.

— Freguês, é Vivi que tu queres, né? Pois bem! Disse a senhora, com um sorriso enigmático.

Adroaldo aguardou, e, em poucos instantes, viu uma figura surgir na penumbra. Por entre uma névoa de fumaça, apareceu uma loira de presença marcante. Ele mal acreditava no que via; parecia a realização de seu desejo, a mulher ideal para a noite que ele tanto almejava. Com cada passo, a figura se aproximava, e ele, cada vez mais encantado, esperava por aquele encontro com uma expectativa crescente.

Mas, quando a loira chegou mais perto e as sombras deram lugar à luz, ele reconheceu algo que não esperava. A expressão de Vivi era familiar, e um arrepio percorreu sua espinha ao notar o olhar severo e ao mesmo tempo irônico da mulher diante dele. Em meio à fumaça, com uma expressão de decepção e uma ponta de divertimento, Vivi o encarou e disse:

— Tu, hein, pai... Não toma jeito, não?

Adroaldo ficou paralisado. O que ele nunca imaginaria é que, no fundo da cidade e do anonimato, daria de cara com a filha. Naquele momento, todos os conselhos de Vitinho, a paciência de Terezinha e os próprios erros lhe vieram à mente. Ele tentou dizer algo, mas as palavras não saíram. Vivi, sem esperar resposta, apenas lançou um último olhar e se retirou, deixando Adroaldo refletindo sobre os caminhos que a vida tomava.

Aquela noite não foi como ele planejou, mas o deixou pensando sobre tudo o que vinha negligenciando e o que, talvez, fosse hora de resgatar.



Silvia Marchiori Buss

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