Vidas em segredo

Gisela é casada com Antônio; levam uma vida simples e sossegada. Ambos trabalham no estabelecimento comercial da família e vivem criando seus dois filhos na mesma cidade que os viu nascer, crescer e casar. Agora são pais de João e Alberto, meninos amáveis e educados.

Gisela e Antônio se conhecem desde crianças e conviveram por algum tempo; eram bons amigos. A mudança repentina do pai de Antônio, devido ao trabalho, fez com que se perdessem por longos anos. No início, trocavam cartas e telefonemas, os quais foram se espaçando até que se perderam totalmente.

Gisela, com quinze anos de idade, teve uma filha, resultado de uma paixão inconsequente com um rapaz que havia chegado à sua cidade para inspecionar algumas construções de uma empresa estrangeira. Ele partiu antes mesmo de saber da gravidez da menina.

Um caos se formou na família; a situação fez com que perdessem o chão, estavam totalmente sem saída. Ou melhor, havia duas saídas: Gisela poderia ter essa criança ou interromper a gravidez. Tudo seria mantido em segredo dos irmãos menores, do restante da família e, certamente, da sociedade.

Por ser uma menina miúda, seu ventre grávido demorou para aparecer. Aos sete meses de gravidez, a menina foi levada para outra cidade, "escondida" dos parentes e de toda a sociedade que, certamente, iria rejeitá-la, mãe solteira e abandonada. Os pais de Gisela, no ímpeto de protegê-la, pensaram que seria melhor para todos. Mais tarde, pensariam no que fazer com a criança.

Para todos os efeitos, Gisela estaria realizando um intercâmbio para o exterior. Nada de estranho; era bastante comum tal fato. Perto de Gisela dar à luz, a mãe parte para ficar ao seu lado.

Após várias horas em trabalho de parto, verdadeiras horas de pavor e medo para Gisela, nasce uma pequena menina que, em seguida, precisa de uma incubadora; por isso, é afastada da mãe.

Gisela recebe com tristeza a notícia de que a frágil menina não sobreviverá. Mãe, filha e um segredo retornam ao cotidiano da vida.

Gisela cursa a escola técnica em contabilidade e ajuda os pais nos negócios da família. Antônio e sua família retornam à cidade natal; voltam a residir na mesma casa que haviam deixado há 10 anos. Retornam à mesma escola e também cursam técnico em contabilidade.

Inevitável o encontro de Gisela e Antônio; primeiro encontram uma inocente amizade, para depois surgir uma grande paixão.

Uma bela festa de casamento ocorre na cidade. Gisela e Antônio recepcionam muitos convidados; tudo perfeito, não fosse o segredo de Gisela. Felizes, recebem o primeiro filho, um menino planejado e desejado. O casal se desdobra entre o pequeno comércio que possuem e a criação do bebê. Trabalham dia e noite e veem seu comércio crescer, o que lhes dá muita satisfação e bem-estar.

Volta e meia, Gisela se perde pensando na menina que perdeu; uma grande angústia se apodera de seu coração. Amava e confiava no marido, mas mesmo assim não saberia como ele iria reagir se soubesse do segredo que ela esconde a sete chaves em uma parte bem oculta de seu coração. O medo de perdê-lo a fazia manter essa parte de sua vida em absoluto segredo.

Mãe e filha nunca falaram desse assunto, como se fosse algo que nunca acontecera; aprisionaram em suas mentes e em seus corações o fato ocorrido há vários anos. 

Passados dois anos, nasce o segundo menino. Duas crianças, a casa e o comércio que crescia devido à dedicação do casal. Sentiram a necessidade de ajuda, alguém que olhasse pelos meninos, que os distraísse enquanto estivessem na loja.

Aline, uma menina de quinze anos, moradora de um bairro não distante dali, se apresenta a Gisela; imediatamente foi contratada. A garota havia perdido o pai e precisava auxiliar a mãe nas despesas de casa.

Aline, Pedro e Gabriel passavam longas horas do dia se divertindo no jardim da casa. Algumas vezes, Gisela pegava os três adormecidos, exaustos de tanto brincar. O carinho pela menina, que trata tão bem seus meninos, é visível; Gisela pensa que sua filha teria a mesma idade de Aline, o que a faz refletir cada vez mais sobre os acontecimentos da época. Na ocasião, era só uma criança; tudo ficou por conta da mãe. Nem chegou a ver a menina morta, não sabia onde estava sepultada e, enfim, da filha só teve a notícia de sua morte.

Agora, uma mulher madura, resolve conversar com sua mãe sobre o assunto. Nunca pronunciavam certas palavras; parecia que falavam em códigos, mas se entendiam. A mãe de Gisela, já bem doente, revela à filha que seu bebê não morrera, que fora adotada por uma família muito boa, apesar de não ter muitas posses; mesmo assim, desejaram essa criança com muito amor.

Gisela passa momentos de grande angústia; revolta-se com a mãe, sofre em silêncio. Prefere não magoá-la devido ao seu frágil estado de saúde, mas acredita que ela não deveria ter feito segredo sobre a existência de sua filha. Quem sabe como ela estaria? Quanta dificuldade teria passado? Até porque sua mãe comentou que os pais adotivos não possuíam boa condição financeira.

Aline, menina esperta, percebe que sua patroa anda triste; talvez tenha sido a única a notar um olhar triste em Gisela. Tenta uma conversa com a patroa, que, muito carinhosa, agradece, beija a menina e diz que cometeu um grande erro em sua vida. Nada mais foi dito.

Começa uma busca desenfreada pela filha, que, segundo a mãe, deveria viver não muito longe dali, salvo se o casal houvesse partido. De sua filha, só sabia a data, hora e local de nascimento. Depois de muito relutar, resolve contratar um investigador; está firme na decisão de encontrar a menina, mesmo que esse segredo, que manteve durante toda a vida com Antônio, colocasse em risco seu casamento. Não poderia mais viver sem sua filha.

Passados vários meses de investigações, sempre em segredo, recebe um telefonema. Deveria encontrar-se com o investigador às seis horas do dia seguinte em determinado local. O dia demora a passar; seu coração não dá trégua, bate descompassadamente, sente frio e calor, fome e náuseas. Todos percebem sua agitação; Aline volta a perguntar se dona Gisela está sentindo alguma coisa; ela poderia fazer um chá ou qualquer coisa que desejasse. Gisela explica a Aline que precisa fazer algo muito importante, que talvez seja algo que daria outro rumo à sua vida. Pediu à menina que atendesse a seus filhos até um pouco mais tarde. Aline, feliz por atender um pedido da patroa, a tranquiliza; ficará o tempo que for preciso com os meninos.

No pequeno restaurante de uma rua de chão batido, encontra o investigador. Imediatamente, ele entrega a Gisela algumas fotografias. Tremula, Gisela olha uma a uma; lágrimas escorrem pelo seu rosto, um misto de felicidade e angústia toma conta de seu coração. Conhece muito bem essa menina. Nesse exato momento, encontra-se no lugar onde sempre deveria ter estado e em companhia dos irmãos.


Silvia Marchiori Buss

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