Tudo culpa tua

Tereza e João se esbaldavam na cama de casal. Teriam a tarde inteira para eles, um verdadeiro encontro dos sonhos para os amantes, já que o marido de Tereza, Paulo, só chegaria tarde da noite.

Beijos intensos, carícias sem pressa, até que um som inesperado interrompe o momento. Um assobio vindo da porta da frente fez o sangue de Tereza gelar.

– "Fiu, fiu!"

Ela congelou por um segundo e, com os olhos arregalados, sussurrou:

– Xi! É o meu marido!

João, quase sem acreditar, sentou-se rápido na cama, o rosto em pânico.

– Como assim? Tu não disseste que ele só chegaria tarde da noite? Em que fria tu me meteu! O que eu faço agora?

Tereza, desesperada, olhou ao redor do quarto e sussurrou com urgência:

– Vai! Entra no armário e não dá um piu!

Mal João se encolheu dentro do armário, a porta do quarto se abriu. Paulo entrou com um olhar desconfiado, já lançando uma pergunta:

– Com quem você falava?

– Com ninguém, meu bem! Era a TV.

Paulo ergueu uma sobrancelha, seu tom cheio de ironia:

– Ah, é? Mas nós não temos TV no quarto.

Tereza hesitou por um segundo, mas logo emendou, tentando soar casual:

– Ah, claro! Era comigo mesma. Sabe como sou, né? Não consigo ficar de bico calado. Fico deprimida se não falo...

– Ela soltou uma risada nervosa, enquanto por dentro lutava para manter a calma.

Paulo olhava em volta, claramente desconfiado. Não parecia totalmente convencido, mas, em vez de continuar o interrogatório, ele mudou de assunto, com um tom sombrio:

– Afinal, por que você acha que eu cheguei cedo? Ele olhou para o chão, mexendo os pés de forma nervosa.

Tereza, tentando disfarçar a ansiedade, respondeu:

– Não sei... Algum problema com o trabalho? Não deu certo aquele serviço que ia te render uma grana boa? Amarelou de novo?

As palavras dela eram afiadas, e Paulo, constrangido, evitou encará-la. Ele soltou um suspiro longo, como se carregasse o peso do mundo nas costas, e finalmente respondeu, com a voz baixa:

– Tá bem, Tereza. Eu vou sair e voltar na hora combinada.

Seus olhos a fitaram com uma mistura de tristeza e resignação.

Antes que Tereza pudesse responder, Paulo deu meia-volta e saiu do quarto. O silêncio que seguiu foi pesado, quase sufocante. O coração de Tereza batia acelerado. Ela mal conseguia acreditar que tinha escapado daquela situação.

João saiu do armário, suado e com o rosto pálido.

– Caramba, isso foi por pouco! – ele sussurrou, com a voz ainda trêmula.

Tereza, tentando recuperar o controle, soltou uma risada nervosa.

– Pois é... tudo culpa tua, João.

Ela se jogou de volta na cama, mas, ao contrário de antes, o clima havia mudado completamente. A tensão estava no ar, e mesmo sozinha com João, uma sombra da presença de Paulo ainda pairava sobre eles.

Silvia Marchiori Buss

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