Três vidas e um encontro
Ana deixa a casa grande completamente abalada; algo muito sério ocorrera para deixá-la tão transtornada. A moça é muito linda; seus cabelos, geralmente arrumados, sequer um fio fora do lugar, encontravam-se desajeitados, suas roupas rasgadas e seu meigo rosto muito pálido. Rapidamente, dirige-se ao carro; parece bem-sucedida, partindo do automóvel que possuía. Seria dela? Não sei... Saiu rangendo pneus, mostrando um total descontrole. Algo sério no interior da bela casa, com grandes janelas e imponentes portas, circundada por um belo jardim muito bem cuidado, até parecia de algum quadro de pintor famoso. Mas era simplesmente uma casa onde várias coisas aconteciam, não fugindo às regras.
Pedro não aparece no encontro que havia marcado com Aline após seu plantão semanal. O jovem médico não costumava atrasar-se e, quando o fazia, telefonava a sua bela noiva, pois era muito polido e dedicado; estavam prestes a se casar, já nos preparativos finais. Esse seria mais um encontro para discutirem convites, música e cardápio. De longe, Pedro faltaria.
Aline, em sua meiguice, compreendia o trabalho de seu jovem noivo, médico de uma cidade do interior. Geralmente, atende a vários pacientes por dia, com vários e desconhecidos sintomas, mas mesmo assim não deixava nenhum sair sem algum remedinho, seja simplesmente um chá. Não era médico de abandonar seus pacientes à própria sorte; por isso, era muito querido. Sabendo dos hábitos gentis do noivo, tranquiliza-se e, pacientemente, pede ao garçom um conhaque, afinal, o frio estava mostrando sua cara.
A noite estava chegando, linda e clara, exibindo uma lua muito grande, opulenta e redonda, a lua cheia. Talvez por isso Pedro se atrasasse, pensa Aline. Mudança de lua, muitos partos; cresceu ouvindo tal fato de sua mãe.
Distraída, se pega pensando sobre o quanto é sortuda por ter encontrado um belo partido, como se costuma falar no interior. É o desejo de toda moça encontrar seu príncipe encantado, e o seu era mais que encantado; já era realidade. Pensava: o que um belo e jovem médico teria vindo fazer nesse fim de mundo? Sim, porque como a maioria das cidades do interior, incluindo essa, também não oferece muita coisa e quase nenhuma chance de crescer profissionalmente. Por isso mesmo, admira ainda mais seu noivo, pois, mesmo sabendo que muitas vezes não recebe um pagamento digno da profissão que exerce, demonstra carinho com seus pacientes. Às vezes, nada recebe; ou melhor, é presenteado e agradecido por um grande “obrigado” seguido de “Dr., Deus lhe proteja”.
Ah! Mal essas pessoas sabem o quanto ele precisava de ajuda e proteção; na verdade, era só o que realmente precisava.
Aline, já cansada, resolve ir ao encontro do noivo no casarão onde mora, que está sendo preparado para ser a casa do casal logo após o casamento. Tentou o telefone e caiu na caixinha. Maldita caixinha... pensou: deve estar no meio de um parto ou, quem sabe, costurando algum menino que, brincando de rolimã — bem comum nas estreitas ruas da pequena cidade — talvez tenha deixado um pedaço de joelho na rua áspera e precisava de ajuda médica.
Pensava em preparar um pequeno jantar e, depois, poderiam combinar os preparativos finais para o grande dia. Feliz, linda e calma, abre a porta de sua futura linda casa de estilo barroco e se surpreende com a cena que vê: uma bela jovem loira com um bebê nos braços, agachada sobre um corpo. Diz: "Prazer, sou Ana."

Silvia Marchiori Buss
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