Três mulheres

Anna, Carmem e Augusta. Três gerações de mulheres fortes e decididas. Cada uma com sua história, todas interligadas por muito afeto e respeito.

Augusta, neta de Anna e filha de Carmem, vivia em uma cidade bem próxima das duas mulheres de sua vida. Tinha vinte e cinco anos e acabara de se formar em Direito. Fazia parte de uma grande equipe de profissionais de um renomado escritório na capital. Viveu alguns anos com o namorado, que atualmente era apenas colega de trabalho. O rompimento da relação não impediu que continuassem amigos.

Carmem era uma mulher forte, bem-humorada, de personalidade marcante, herança recebida da mãe e transmitida à filha. Ficou viúva ainda muito jovem, com uma filha para criar. Muito bonita e simpática, teve muitos pretendentes, mas nunca se casou novamente. Foi feliz no casamento e dizia ter vivido o maior amor do mundo. A lembrança desse amor lhe bastava. Preferiu dedicar-se à carreira de professora e à sua pequena família: sua mãe e sua filha. Lecionava para crianças na escola municipal, o que tomava bastante tempo. As crianças preenchiam sua vida. Carmem era uma filha dedicada, que amava e respeitava profundamente a mãe, por tê-la criado sozinha em tempos difíceis. Quanto ao pai, nunca soube dele — era um segredo. Esse assunto nunca foi permitido, e Carmem também não questionava. Assim desejava Anna, e ambas respeitavam o silêncio da matriarca dessa família de três mulheres.

Carmem continuava morando próximo à casa de Anna e passava todo o tempo livre com a mãe. Anna era uma mulher sofrida, sábia e bondosa, que soube transformar a dor em dedicação. Dedicou sua vida à criação e educação da filha.

Conversavam sobre tudo, menos sobre o pai de Carmem, avô de Augusta, companheiro de Anna. Nem a filha nem a neta sabiam do paradeiro dele, de sua existência ou origem. Esse assunto perturbava muito Dona Anna.

Em certa época da vida de Carmem, a figura de um pai, uma referência masculina, fez falta, mas essa carência foi logo suprida pelo imenso carinho e dedicação da mãe. Na casa onde Carmem cresceu e onde ainda morava Dona Anna, não havia fotografias do pai, apenas um quadro já desbotado de dois irmãos mais velhos, os tios de Carmem, num canto meio escuro, que passava despercebido.

Anna, com seus quase oitenta anos, nunca se casou. Mesmo assim, teve a filha e a criou com dignidade. Perdeu a mãe aos doze anos. Seus dois irmãos mais velhos foram servir na Marinha e raramente visitavam a família. A fotografia desbotada era a única lembrança que Anna guardava deles. Ela foi criada pelo pai e para o pai. Anna referia-se a ele como um homem severo e violento. Das poucas vezes que falava sobre ele, contava que sua mãe sofria em suas mãos, responsabilizando-o pela morte precoce dela.

As três mulheres costumavam se encontrar na casa de Anna todos os sábados à tarde para fazer balas de coco, que eram doadas a uma lojinha que vendia roupas usadas, geleias, doces e outras guloseimas, cujo lucro era repassado a instituições para mães solteiras. Três vidas, três mulheres, um segredo.

O grande segredo que envolvia o pai de Carmem e avô de Augusta, e que tanto amargurava Dona Anna, muitas vezes criava um abismo entre elas. Esse abismo só poderia ser desfeito e revelado por Dona Anna.

Augusta e Carmem, mesmo quando estavam a sós, não comentavam o assunto, temendo trair a confiança de Anna. Mesmo desejando explorar o passado para descobrir a parte masculina da família, ambas permaneciam em silêncio. Durante as tardes de sábado, entre as tarefas e brincadeiras, seus olhares se cruzavam com uma cumplicidade quase verbal. As palavras ficavam presas na garganta, enquanto os três corações batiam em um mesmo compasso.

O sábado que anunciava a chegada do inverno encontrou apenas duas das três mulheres. Naquela tarde, não houve o ritual das balas de coco. Tampouco o colorido dos papéis sobre a mesa esteve presente. Não houve sorrisos, nem a cumplicidade nos olhares das três gerações de mulheres.

Sobre a cama de Anna, ainda coberta pela velha colcha de crochê cheia de flores coloridas, Carmem e Augusta se incumbiram de reunir uma vida em caixas de papelão: separar as coisas de Anna, doar algumas, guardar outras e fechar a casa.

Uma pequena caixa, aparentemente insignificante, foi a última a ser aberta. Dentro, encontraram retratos, todos de um mesmo homem. Junto às fotos, havia um diário. Em poucas páginas, descobriram as respostas para as perguntas que todos os sábados deveriam ter sido feitas e respondidas, mas que permaneceram em segredo até aquele dia de lágrimas.

Carmem e Augusta souberam, da maneira mais cruel, o que Anna tanto relutava em revelar: ela havia sido violentada pelo próprio pai.

Os sábados nunca mais foram os mesmos. Mãe e filha continuaram a não falar sobre o fato que tanto atormentou Anna. As duas mulheres seguiram fazendo balas de coco, mantendo o ritual que Anna lhes ensinara. As balas, envoltas em papéis coloridos, ajudavam a sustentar a casa de mães solteiras que fora aberta em homenagem à matriarca das três mulheres. 



Silvia Marchiori Buss

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