Quando é noite

A noite, quando fecha os olhos, Adélia pensa que o mundo inteiro está dormindo naquele momento. Isso acalma um pouco seu coração agitado, triste e solitário, e alivia sua angústia.

Adélia dividiu a cama com o marido por quatro décadas. Mesmo depois de sua partida, continua do mesmo lado da cama, respeitando o lado que pertencia ao seu companheiro. Por vezes, sente sua respiração. Toda noite, toca o travesseiro com fronhas limpas e cheirosas, bem como Antônio gostava. Sente a maciez do algodão em suas mãos calejadas e deseja boa noite. Às vezes, quando fecha os olhos para dormir, deixa seu coração se apaixonar novamente, permite que seu corpo sinta desejo e sua alma viaje.

O silêncio da noite, muitas vezes, alivia sua ansiedade. Nessa hora, pensa que o mundo todo também está dormindo.

Numa dessas noites, de alta madrugada, acordou. Continuou deitada na cama, imóvel sob as cobertas, ouvindo o murmúrio do silêncio. Nenhum cachorro latia, nenhum carro passava. Então, baixinho, porém nítido, escutou um assobio masculino que vinha à distância, talvez da outra ponta da rua. Aguçou o ouvido para reconhecer a melodia. Era uma música triste, linda e nostálgica. A sua música. A música deles como casal.

Entendeu o aviso. Virou-se na cama para o lado dele. Tocou o travesseiro coberto pela fronha limpa e cheirosa de puro algodão. Não estava fria. Sua mão calejada sentiu o calor dele.

Seu coração foi se acalmando. Sua angústia e ansiedade foram embora. Sua alma começou a viajar.




Silvia Marchiori Buss

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