Procura-se
O carro vermelho para no sinal de trânsito, numa das ruas mais movimentadas da avenida principal, uma das mais longas da grande cidade. O volume em alto e bom som tocava música de Elis Regina; a moça de grandes olhos verdes, cabelos ao vento e um largo sorriso volta seu olhar para o táxi amarelo que estava parado bem ao seu lado, procurando aquele olhar que sentiu penetrar em seu íntimo.
O sinal manda seguir; a vontade de ambos seria congelar a sinaleira para permanecerem se olhando por toda a eternidade. Os olhos negros, com olhar sedutor, que ultrapassavam os vidros dos carros, penetraram em seu coração como uma flecha de Cupido. Não tiveram nem tempo de falarem algo, de abrirem as janelas dos carros. Até se recomporem, o táxi arrancou em grande velocidade.
Ela observa que o carro se dirige ao aeroporto; ele volta a cabeça para trás, fazendo sinal para que ela o seguisse. A mulher do carro vermelho pensou duas vezes, até que decidiu seguir seu caminho, pois estava com pouco tempo para chegar à escola onde dava aulas. Seus alunos de belas artes, com certeza, já estariam em suas mesas à espera da tarefa do dia.
O homem do táxi consegue anotar parte da placa do automóvel, na verdade, somente as letras: FGA. Na certa, em sua volta, tentaria encontrar aquele carro que transportava a mais bela mulher que ele jamais havia visto.
Flávia, uma profissional respeitada, bem-quista pelos alunos e muito considerada no meio acadêmico pela sua capacidade e sua arte, dava aulas por puro prazer de ensinar o belo, pois era bem-sucedida como pintora. Seus quadros valiam uma pequena fortuna e eram assinados apenas com suas iniciais, três letras.
Marcos chega exausto em Frankfurt. Irá representar o escritório onde trabalha, uma firma multinacional de grande porte. Como assistente jurídico da empresa, poderia tomar importantes decisões; precisava esquecer a mulher de olhos verdes do carro vermelho.
A jovem pintora divide seu dia entre seu ateliê, que compartilha com mais dois artistas na sofisticada Rua das Praças, um dos lugares mais badalados da cidade, e a academia de artes onde leciona. Seu carro vermelho-vivo era especial; com ele, tinha autonomia para ir e vir de um lugar para outro sem precisar da ajuda de ninguém. Aprendeu a se virar sozinha desde que sofrera o acidente que a deixara paralisada da cintura para baixo. Isso, nem outra coisa qualquer, conseguia diminuir a autoestima de Flávia; havia superado o trauma do acidente, que, além de deixá-la limitada, havia levado seus pais.
Marcos permanece por vários dias na Alemanha, firme em retornar com seus objetivos cumpridos de forma positiva; era severo consigo mesmo. Um perfeccionista naquilo que fazia, exigia perfeição em tudo. Sua pequena casa, nos arredores da cidade, rodeada por um pequeno, mas bem cuidado jardim, demonstrava sua personalidade.
Viera de uma família pobre. Conseguiu formar-se em advocacia com muito esforço pessoal, trabalhava durante o dia como office-boy da empresa em que hoje é um dos sócios e estudava à noite. Admirava as artes, porém não era conhecedor, nem expert em obras de pintores famosos. Havia vários quadros estampados nas paredes de sua casa. Adquiriu alguns; outros, havia ganho de amigos. Admirava-os, mas nunca se preocupou em saber quem os assinava; não era dado a essas coisas. Era mais pragmático e cético. Sua ex-esposa havia escolhido os de sua preferência, deixando para Marcos aqueles que ele havia comprado, todos assinados com três letras. Nada sabia, tampouco tentava saber dos artistas que se faziam presentes em sua casa, talvez atualmente suas únicas companhias.
A tela que mais apreciava ficava na parede maior da sala da lareira; parecia com o lugar, era colorida, viva e quente, e lhe transmitia tranquilidade. Sabia que ao retornar teria muito trabalho e reuniões, afinal trazia grandes decisões para outros empreendimentos no estrangeiro. Chega exausto. Joga sua bagagem na entrada da casa, junto à porta, e recolhe-se ao ambiente mais acolhedor, a sala da lareira. Prepara uma bebida de boas-vindas, tira seus sapatos mocassim, desaperta a gravata e coloca para tocar o CD de Elis. Volta a pensar naqueles olhos verdes e cabelos esvoaçados. Como encontrá-la nessa imensa cidade? Só lhe restava procurar.
Flávia, acostumada com a solidão, se entrega à sua arte. Tenta pintar aqueles dois olhos castanhos, que ultrapassaram os vidros dos carros e alcançaram seu coração. Passa horas pintando; precisava fazê-lo o mais rápido possível, antes que as imagens se confundissem e ela perdesse a emoção daquele olhar. Sabia que essa seria a única lembrança que teria do desconhecido do táxi amarelo.
Marcos anda feito adolescente apaixonado, catando aqui e ali carros vermelhos com as três letras FGA. Tenta outras maneiras de encontrar, mas seria como achar uma "agulha no palheiro". Demora, mas não perde a esperança de encontrá-la. Chove forte, fim de tarde, trânsito infernal. Só desejava estar na sala da lareira, bebericando seu uísque e ouvindo Elis.
Chega molhado, tira suas roupas, veste o roupão, acende a lareira; ao levantar-se, olha para o quadro que tanto o tranquiliza. No canto da tela, encontra as três letras FGA. Na mesma noite, começa a buscar em catálogos e guias telefônicos artistas que tivessem essas iniciais, mas não encontra. Começa a frequentar lojas, ateliês e espaços de exposições.
A primavera já se mostra nas primeiras flores que enfeitam as grandes avenidas. Uma grande exposição de vários artistas conhecidos e famosos aconteceria naquela noite de sexta-feira. Sem dificuldades, consegue um convite. Ao chegar, cumprimenta vários conhecidos, mas não esquece de buscar aquele olhar estonteante que há muito lhe persegue.
Flávia, em frente a uma grande tela onde estão desenhados dois belos olhos castanhos, recebe os cumprimentos dos admiradores e amigos. Marcos, atônito, caminha em direção à tela, onde se reconhece. Para em frente, fixa-se no canto da tela e encontra o que esperava: as três letras FGA. Procura entre as pessoas que rodeiam o quadro aqueles olhos verdes; baixa os olhos atraídos pelo olhar que muito procurou. Percebe que encontrou a mulher que tanto tempo procurou.
Estendem suas mãos, que entrelaçam-se como se já houvessem se tocado. Esquecem-se de todos à sua volta. São somente dois pares de olhos entre toda aquela multidão.

Silvia Marchiori Buss
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