Pobre menina rica
Cabisbaixa, Gláucia saiu do luxuoso carro do pai sem se despedir e entrou na escola com passos arrastados, visivelmente abatida. Desde a perda de sua mãe, que sempre a compreendia e apoiava, Gláucia sentia-se perdida. Mesmo com todo o dinheiro e as inúmeras possibilidades que a riqueza proporcionava, ela não acreditava que alguém pudesse ser verdadeiramente feliz sozinho.
Sempre inclinada a ações sociais, a menina se dedicava a ajudar os outros. Cumpria as exigências do pai com rigor, estudando inglês e outras matérias que ele considerava essenciais. Embora entendesse a importância de aprender inglês, seu verdadeiro desejo era, quando adulta, viajar pelo mundo para auxiliar pessoas necessitadas. Queria oferecer mais do que ajuda financeira: sonhava em dar esperança, fé e sabedoria àqueles que precisavam. Era uma estudante dedicada, mas desde a morte da mãe, a vida havia perdido o brilho.
Sua única fonte de consolo e afeto era Ana, sua babá, que se tornara sua melhor amiga e confidente. Ana conhecia Gláucia desde bebê e sabia bem como o pai dela, um rico industrialista, era exigente. Ele via em Gláucia sua única herdeira e, por isso, a pressionava para levar uma vida de disciplina e responsabilidade. No entanto, Ana, com seu carinho e sensibilidade, oferecia à menina o afeto de que ela tanto precisava.
Ana era uma mulher preta, de coração bondoso e cheia de fé. Nunca se casou, pois desde cedo assumiu a criação dos sobrinhos, após a morte de sua irmã mais nova no parto de Josué. Ele, um menino estudioso e trabalhador, carregava em si o peso da culpa pela morte da mãe, mesmo sabendo, no fundo, que nada poderia ter feito para evitar.
A amizade entre Gláucia e Josué surgiu naturalmente. Ambos compartilhavam a dor da perda de suas mães, ainda que em circunstâncias diferentes. Gláucia perdera sua mãe em um trágico acidente de carro no verão passado, quando ela voltava de uma viagem para levar a filha ao acampamento da escola. Desde então, os dois jovens compartilhavam suas dores e esperanças, encontrando consolo um no outro.
Com o passar dos meses, a amizade entre Gláucia e Josué se aprofundou, transformando-se em algo mais. Contudo, o pai de Gláucia jamais aceitaria essa relação. Se descobrisse, certamente puniria severamente a filha, e Josué também sofreria as consequências, mesmo sendo inocente. Além disso, Ana, a única pessoa em quem Gláucia confiava, seria demitida. Para protegerem a si mesmos e à babá, os dois jovens mantinham seu relacionamento em segredo.
Com o tempo, o amor entre Gláucia e Josué cresceu. Eles sonhavam em fugir juntos, viver uma vida longe das pressões da riqueza e das expectativas do pai de Gláucia. Imaginavam construir uma família e seguir seus projetos sociais, ajudando os mais necessitados, tanto no Brasil quanto em outras partes do mundo. A cada encontro escondido, a vontade de deixarem para trás a opressiva vida de "menina rica" e assumirem seu amor se tornava mais forte.
Mas, como todo segredo, aquele também corria o risco de ser descoberto. A vida que Gláucia levava estava cada vez mais à beira de uma grande transformação. Ela sabia que, em breve, teria de fazer uma escolha: seguir o caminho que o pai traçara para ela ou abrir mão de tudo e se entregar ao amor e à liberdade que tanto desejava ao lado de Josué.
O jovem casal conseguiu manter o romance em segredo até que a barriga de Gláucia começou a aparecer. Nesse momento, perceberam que a hora de tomar uma decisão havia chegado. Na calada da noite mais fria do ano, decidiram fugir da cidade e partir em busca de uma aventura consciente, buscando a felicidade enquanto ajudavam povos necessitados. Tornaram-se defensores dos oprimidos e dos mais fracos, desafiando aqueles que viam os pobres como escravos da sociedade proletária. Para Gláucia, isso significava ir contra seu próprio pai, sua riqueza e sua herança.
Os anos se passaram, e o filho de Gláucia e Josué cresceu. Enquanto isso, o avô envelhecia, tornando-se cada vez mais rico, mas também sentindo o peso da ausência da filha. Já a par de toda a história do casal, ele tentou incessantemente encontrar a filha, o genro e o neto.
Na noite de Natal de 2012, uma batida inesperada ecoou na porta da mansão. O adolescente, filho de Gláucia e Josué, se apresentou ao avô, o rico industrialista. Foi amor à primeira vista. O encontro trouxe de volta o que o velho empresário tanto ansiava: a reconciliação com sua família.
Gláucia e Josué seguiram com sua missão de ajudar os necessitados, agora com o apoio financeiro da herança e o aval do pai. Juntos, uniram amor e compaixão, construindo uma vida dedicada a causas maiores.
Silvia Marchiori Buss

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