Os pés de Marietinha
Marietinha, sem dúvida, era o único ser humano que não era reconhecido pelas três partes tradicionais de classificação do corpo: cabeça, tronco e membros. Para muitos, Marietinha era só pés... A moça morena, de olhos verdes expressivos e sorriso largo, emoldurado por cabelos escuros que lhe caíam pelas costas, era dona de um par de pés que causava inveja a qualquer pessoa que possuísse um corpo dividido nas partes biológicas conhecidas.
Todos, literalmente, caíam de quatro diante dos pés de Marietinha. Eram pés pequenos, mas nem tanto; rechonchudos, mas na medida certa. A pele que os revestia era rosada e macia. Os dedos de seus pés pareciam uma cordilheira de montes suaves, que decresciam com uma delicadeza admirável. E as unhas de Marietinha, no final de cada dedo, pareciam pequenas pérolas esculpidas com perfeição. Os pés de Marietinha eram uma verdadeira obra de arte... falando em arte, seus pés já haviam sido retratados por renomados artistas e adornavam as paredes de diversas casas ao redor do mundo.
Os pés de Marietinha estampavam outdoors em propagandas de sapatos, esmaltes e até adornos para pés foram criados, inspirados naquela parte tão bela do corpo da moça. Os pés de Marietinha lhe renderam muito dinheiro e inúmeros admiradores.
Mas, com o tempo, Marietinha começou a se incomodar. Suas outras partes do corpo — que, por sinal, também eram muito belas — passavam despercebidas. Nada mais importava diante da perfeição dos seus pés. Ela começou a sentir ciúmes dos próprios pés. Todos os dias, travava uma batalha interna com eles. Sua autoestima estava abalada, tudo por causa da adoração que as pessoas demonstravam por seus pés.
Decidida a resolver o problema de vez, Marietinha tomou uma atitude radical. Agora, pela cidade, ela desfila com um par de belas mãos, conduzindo uma elegante cadeira de rodas.
Silvia Marchiori Buss

Comentários
Postar um comentário