O voo
Conversaram sobre suas vidas, suas dores, seus sonhos. Ele era casado e vivia dias difíceis. Sua esposa, após o nascimento dos gêmeos, havia sido diagnosticada com um câncer agressivo. As chances de cura eram pequenas, e ele cuidava dela com dedicação e tristeza, sabendo que o tempo juntos se tornava cada vez mais escasso. Em resposta ao seu relato, a moça – filha única, criada em uma família bem estruturada, sem grandes dificuldades – lhe disse que milagres existem e que o fato de estarem ali, naquele voo, era a prova de que a vida pode nos surpreender, mesmo à beira do precipício. Ela morava em uma bela casa próxima ao escritório onde ambos trabalhavam e, para surpresa dos dois, descobriram que eram praticamente vizinhos de trabalho e nunca haviam se cruzado.
Enquanto a turbulência se dissipava, o magnetismo entre eles se intensificava. A conexão entre ambos era tão forte que combinaram de se encontrar no lobby do hotel onde ela estaria hospedada em Singapura. Seria mais gentil, pensou ele, ir até onde ela estivesse. Ela, marcada pela tristeza do passado, lembrava-se do avô que havia traído a avó de forma cruel, uma ferida que ainda doía em seu coração e que ela carregava consigo. A traição do avô, motivo de profunda tristeza, antecipou a morte da avó que ela tanto amava, deixando-a com um medo de entregar-se ao amor que a fazia hesitar.
Na hora do encontro, ela se preparou cuidadosamente. Vestiu a melhor roupa que havia na mala e desceu para esperá-lo, mas, ao vê-lo, escondeu-se entre as grandes colunas do hotel. Sabia que a atração entre eles era poderosa e que de uma taça de vinho a uma noite de amor seria um pequeno passo. Sentiu-se dividida entre o desejo de conhecê-lo mais profundamente e o respeito pela situação complicada dele. Deixou, então, um bilhete com a recepcionista, instruindo-a a entregar caso ele perguntasse por ela.
Quando ele leu o bilhete, considerou seus argumentos, compreendeu e aceitou sua decisão sem insistir. O respeito pela escolha dela foi mais forte que o desejo, pois nunca havia traído sua esposa. Retirou-se para o seu hotel, distante algumas quadras dali. Ligou para sua família, que naquele momento estava despertando para mais um dia de escola. A esposa, mostrando otimismo e gratidão, lhe falou sobre o carinho e atenção que recebiam. Sentindo-se em paz por saber que tudo estava bem em casa, ele tentou descansar, mas o sono não chegava.
A dúvida do desencontro dominava seus pensamentos e os dela. Ambos se questionavam se poderiam ter insistido um pouco mais – afinal, seria apenas uma noite e nada mais. A hesitação dele, porém, o fez respeitar a decisão dela. E assim se afastaram. Nos meses que se seguiram, nenhum dos dois se procurou, como se um acordo silencioso os mantivesse em seus próprios caminhos. Evitavam até os percursos nos arredores de seus escritórios que descobriram compartilhar. Por quase dois anos, não houve qualquer contato, nenhum telefonema, nenhuma mensagem – apenas um profundo silêncio.
Ele imaginava que a moça tivesse se casado e talvez tivesse filhos, continuando com aquele encanto que o cativou. Ela, por sua vez, pensava que a esposa dele talvez tivesse melhorado, e que sua família estivesse vivendo feliz.
Nas vésperas do Natal de 2000, a moça embarcou em um voo para Nova York acompanhada dos pais, enquanto ele estava no mesmo voo, com escala em Miami, rumo a Orlando com os gêmeos, para passarem o Natal juntos. Estavam distantes apenas algumas fileiras. Foi então que, quando seus olhares se cruzaram, tudo que parecia distante ganhou nova cor. Ambos sorriam, como quem reencontra uma peça perdida e entende que o destino é mais complexo do que imaginavam. A partir daquele encontro, as viagens deixaram de ser solitárias – ele com sua família, ela com a sua – e, de alguma forma, estavam todos juntos.
Silvia Marchiori Buss

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