O telefone
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Ritinha foi acordada bruscamente pelo som estridente do telefone. Demorou alguns minutos até recobrar a consciência e perceber que ainda estava vestida, estirada no sofá da sala. O telefone continuava a tocar, o que só aumentava a dor de cabeça que ela sentia. O som parecia perfurar seu cérebro, indo de um ouvido ao outro, como uma furadeira.
Ela olhou para o relógio de parede, exatamente quando o “cuco” deu sinal de vida, indicando três horas da manhã.
— O quê? — pensou. — Já são três da manhã?
Sentiu o gosto amargo na boca, esfregou os olhos e, sem muita paciência, acendeu um cigarro, pensando: "Preciso largar esse vício; ainda vai me matar." Depois de algumas baforadas profundas, conseguiu se arrastar até a mesinha de canto, onde o telefone continuava a tocar. Bocejando, atendeu com uma voz rouca:
— Alô?
Nada. Falou novamente, agora com a voz menos rouca:
— Alô? Quem é?
Silêncio do outro lado da linha. Podia ouvir, de longe, um som ofegante, o que a deixou irritada.
— Alô? Fala, desgraçado! Fala, covarde!
Nada. Somente aquele gemido ao fundo.
— Vou desligar! É tua última chance de falar. Afinal, são três horas da madrugada! Não tens coisa melhor pra fazer? — gritou, já sem paciência.
— Olha que eu tenho bina, seu malandro! — disse, ameaçando.
Na verdade, Ritinha não tinha bina nenhuma, e mal sabia quem bancava sua conta de telefone. Furiosa, bateu o telefone no gancho e foi ao banheiro. Despiu-se e enfiou-se sob a água fria, tentando limpar o cansaço da noite e dos “fregueses” que ainda sentia em sua pele. Usou o sabonete “Alma de Flores” que sua mãe lhe dera no último Natal em que estiveram juntas, e seus pensamentos vagaram para a velha senhora. Com um sentimento estranho, prometeu a si mesma: "Nesse fim de semana vou ver minha mãe."
De repente, o telefone voltou a tocar. Enrolada no roupão, Ritinha correu até o aparelho e atendeu, irritada:
— Alô? Quem fala?
Novamente, apenas silêncio e os mesmos gemidos. Sua raiva foi ao extremo:
— Se tu fosses homem, falarias! Quer saber? Vai perturbar a tua mãe! — esbravejou, antes de bater o telefone no gancho mais uma vez.
Cansada, foi para o quarto e começou a se besuntar com cremes. Mal terminara de passar o produto na perna direita quando o telefone tocou de novo. Com o tubo de creme largado sobre a cama, correu até o aparelho e começou a gritar:
— Covarde! Te retrata se és homem! Um dos meus vai dar conta de ti!
Fez-se silêncio de ambos os lados da linha. Foi então que ouviu uma voz familiar:
— Ritinha? Calma! Aqui é teu irmão, o Edvaldo. Encontrei a mãe caída no chão com o teu número na mão.
— A mãe? Com meu telefone na mão? É aquele cartãozinho amarelo que dei a ela no último Natal?
— Sim, é esse mesmo.
— Que droga! — murmurou Ritinha.
— Ritinha! O que tu disseste? Isso lá é coisa que se diga, ainda mais diante de um defunto... da própria mãe?
Ritinha desligou o telefone, voltou ao banheiro e se enfiou novamente sob a água fria. Esfregou-se várias vezes com o sabonete “Alma de Flores,” tentando lavar não só a sujeira, mas também a culpa que agora a consumia.
O tempo passou e, embora o telefone tivesse ficado em silêncio por meses, ela não conseguia mais ter paz. Certo dia, o telefone tocou novamente, despertando Ritinha de seu luto e tristeza. Tremendo, atendeu:
— Alô?
Do outro lado da linha, ouviu a voz animada de um locutor de rádio:
— Dona de casa feliz, hoje é seu dia de sorte! Seu número foi premiado! Basta dizer seu nome e endereço e terá a viagem dos seus sonhos!
— Eu? Não sei... tô meio tonta... — balbuciou Ritinha.
O locutor insistiu, mas tudo o que se ouviu do outro lado da linha foi um gemido. A chamada terminou em silêncio.
E, na sala escura e mofada, o telefone nunca mais tocou.
Silvia Marchiori Buss
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