O retratista
Moisés foi o retratista mais solicitado e famoso da pequena São Sebastião e das redondezas. Nos anos 60, sua habilidade como fotógrafo era amplamente reconhecida. Ele esteve presente tanto nos momentos felizes quanto nos tristes de muitas famílias da região. O telefone mal tocava, e lá ia Moisés com seu pesado equipamento registrar casamentos, batizados, aniversários e até funerais. Em São Sebastião, era costume fotografar o defunto em sua última morada, um hábito reservado às famílias abastadas, que faziam tudo com grande pompa.
Seu maior orgulho foi ter fotografado o batizado do Dr. Ariovaldo, o atual prefeito da cidade e seu grande amigo. Muitos, como Ariovaldo, já haviam requisitado seus serviços. Contudo, com o advento da tecnologia, Moisés estava sendo cada vez mais deixado de lado. Ele adorava contar os detalhes de como o pequeno Ariovaldo deu trabalho ao padre e a todos na pia batismal. Comentava com satisfação: "Aquele menino tinha muita personalidade, não deu outra! Virou um célebre homem público!" O retratista se orgulhava do poder que o prefeito agora tinha.
Moisés era casado com dona Florinda havia quase cinquenta anos. Chegou da Espanha nos distantes anos 40 e, logo após, conheceu a mulher que conquistou seu coração. Embora o tempo tivesse feito seu corpo definhar, Florinda, a quem ele chamava carinhosamente de Flor, crescera em largura e espessura. Ela atribuía esse ganho de peso à menopausa e, por mais que tentasse fazer dietas, acabava desistindo e deixando a natureza seguir seu curso.
O velho Moisés quase desaparecia ao lado da robusta Flor, que costumava se sentar em uma cadeira de balanço em frente à casa, conversando com quem passava. Ela frequentemente lamentava o estado de penúria em que viviam. Coçava sua grande barriga e murmurava: "Que saudades dos bons tempos, quando meu velho era requisitado e podíamos pagar nossas contas. Agora, só resta a aposentadoria minguada, parte da qual vai pro nosso guri, que está penando na capital." Todos já conheciam essa história de cabo a rabo, mas, por respeito à idade avançada e à necessidade de dona Flor de conversar, ouviam pacientemente.
Seu Moisés, apesar de sua fraqueza, ainda contava com orgulho suas histórias, especialmente sobre as personalidades que retratou. Uma das suas favoritas era a vez em que foi chamado para fotografar o presidente Getúlio Vargas e sua comitiva em São Borja, cidade fronteiriça com a Argentina. Foi tratado com todo o luxo: hospedagem em hotel de primeira classe, carro à disposição e muito requinte. Ele nunca esqueceu essa experiência.
Essas histórias entretinham seus três grandes amigos: Vicente, José e Astomiro. Eles se conheciam desde jovens e costumavam se reunir no lobby do hotel Renascença, que, como eles, estava em ruínas, prestes a ser demolido.
Vicente, que sofria de enfisema pulmonar, mal conseguia falar, mas gostava de ouvir as histórias dos amigos. José, que havia colocado uma ponte de safena há mais de dez anos, estava sempre cansado e desanimado. Já Astomiro, após a morte de sua querida Rute, era só silêncio e lamento. Os amigos nem tinham certeza se ele os ouvia, pois nunca reagia, mesmo quando o assunto era política ou futebol, temas que antes o animavam.
Moisés, apesar de sua fragilidade, era o mais falante. Aproveitava para contar suas histórias pela milésima vez, sempre acrescentando algo novo. Ele lamentava que as fotos do seu casamento com Flor não tivessem saído como esperava. Como ele era o protagonista naquele dia, seu ajudante não conseguiu captar a qualidade de suas fotografias. Ainda assim, guardava com carinho o volumoso álbum de capa dura forrada em veludo vermelho, com as iniciais dos noivos, M.F., um verdadeiro luxo.
Fizesse sol ou chuva, calor ou frio, os amigos sempre se encontravam às seis da tarde no Renascença. Vicente, nascido em Vicenza, na Itália, comprou um carro de aluguel quando chegou ao Brasil no final dos anos 30 e transportou diversas personalidades, incluindo o famoso jogador Garrincha, quando este visitou a cidade para inaugurar um estádio de futebol.
José, uruguaio, foi um renomado alfaiate, conhecido como "El alfaiate estrangeiro". Chegou ao Brasil já casado e com muitos filhos, que aos poucos se espalharam pelo mundo. Astomiro e Rute eram brasileiros de São Sebastião. Viviam modestamente, mas felizes, até a morte de Rute, que devastou o sapateiro. Desde então, ele vivia solitário, como um gato abandonado, não fosse pelos amigos que tentavam manter algum ânimo em sua vida.
Agora, Moisés decidira registrar sua despedida antes da demolição do Renascença. No dia marcado, reuniu os amigos em frente ao hotel. Despediu-se afetuosamente e, com passos curtos, subiu os degraus que separavam o lobby do primeiro andar, onde antes jogavam cartas.
Preparou seu equipamento obsoleto e o posicionou em uma das janelas, pronto para capturar seu último grande momento. Fez uma oração, relembrou os bons tempos vividos ali e, por fim, pensou em sua amada Flor, convencido de que ela entenderia sua decisão. No momento em que a câmera clicou, ele abriu um olho, depois o outro, pensando que havia vislumbrado o paraíso. Mas percebeu que estava preso pelo cinturão numa haste que ainda sustentava a bandeira do Brasil e a do Renascença.
Ao olhar para baixo, viu seus amigos rodeados por fotógrafos com modernos equipamentos, aplaudindo o acontecimento que seu velho e obsoleto equipamento já havia registrado no melhor ângulo.
Silvia Marchiori Buss

Comentários
Postar um comentário