O outro lado

A velha mulher viveu toda a sua vida do lado de um rio grande e correntoso; nasceu e se tornou adulta, sempre no mesmo lugar, em um dos lados do rio. Sempre manteve a esperança de algum dia alcançar o outro lado; sabia que lá tudo seria diferente.

Nasceu em uma família grande, era a mais nova dos oito filhos de Olga e Josué, um casal pobre que teve muita dificuldade para criar seus filhos. A casa onde moravam, e que ainda hoje Teresa vive, deixava muito a desejar: sem conforto, de madeira, com grandes frestas entre as paredes, as quais possibilitavam que, mesmo à noite, somente com a claridade da lua, pudesse ver seu outro lado. A casa tinha poucos cômodos; a cozinha era de chão batido, e o fogão a lenha ficava em um canto, onde, ao entardecer, toda a família se reunia para contar histórias. Não havia banheiro dentro de casa; para o banho, era o rio ou um quarto improvisado, que servia para banho e para as necessidades pessoais.

Viviam, basicamente, da pesca. Pescavam para comer e, o que sobrava, quando a pescaria era boa, vendiam ou trocavam por comida no armazém perto dali. Nenhum dos filhos frequentou a escola, que ficava muito longe. O que sabiam, aprenderam com a mãe e o pai.

Teresa nasceu com uma perna mais curta do que a outra; por isso, usava um sapato com o solado bem mais alto do que o outro, o que diminuía a diferença e facilitava sua locomoção. Esse fato fez com que a menina fosse poupada dos trabalhos pesados. Sua tarefa na casa era a limpeza leve e a comida, cujo cardápio não variava muito. Era peixe com mais alguma coisa.

Enquanto menina, sua diversão era banhar-se na beira do rio, enquanto a mãe lavava as roupas da família. Sentada debaixo de uma grande árvore, protegendo-se do forte sol, Teresa acreditava que, se tivesse nascido do outro lado do rio, seria uma menina normal, não precisaria usar o único e pesado par de sapatos pretos, frequentaria uma escola e teria um quarto só para ela. Várias vezes tentou nadar para alcançar o outro lado. Mal chegava à metade e voltava; não tinha fôlego, e o medo de chegar e ver que tudo era igual a fazia desistir, mesmo sem saber por quê. Preferia ficar com sua fantasia de que, no outro lado, tudo seria diferente. Por enquanto, aqui era mais seguro.

Nunca se casou; na verdade, a família não era casamenteira. O irmão mais velho e uma das irmãs haviam se casado e foram viver mais perto da cidade pesqueira, uma cidade muito pequena que vivia da pesca. Na vila, tinha uma igreja que às vezes frequentavam; quando iam, era aos domingos, para assistirem à missa das dez.

A escola municipal era igualmente pequena e só oferecia estudo até a quarta série primária. O comércio se resumia a um armazém, onde abasteciam sua despensa apenas com o básico. Sua vida se resumia no rio e no outro lado do rio; um lado era o real, o outro, o imaginário, a outra vida que teria quando conseguisse ultrapassar os limites do rio.

Assistiu à morte da mãe, em seguida à do pai. Ficou ela e mais dois irmãos na casa; pois três já haviam morrido ainda cedo. O irmão logo acima de Teresa morreu afogado, sumiu ao entardecer e apareceu boiando nas margens do outro lado do rio um dia depois. No dia do resgate do irmão, Teresa tentou entrar na canoa; pensava em poder ficar do outro lado para viver sua verdadeira vida, uma vida diferente, pelo menos aquela que ela desde muito pequena imaginava existir.

Do outro lado, tudo seria diferente. Hoje viveria com seu marido e dois filhos: uma menina com as duas pernas do mesmo tamanho, que teria vários pares de sapatos, e um menino. Teria uma bela casa cor-de-rosa, sem frestas nas paredes. A casa seria rodeada por um belo jardim cheio de flores. Sobre a mesa da cozinha, teria um vaso com rosas, parecidas com aquelas que costumava ver enfeitando o altar da igreja, quando ocasionalmente iam aos domingos. Seria muito feliz, teria um armário onde guardaria seus sapatos, todos com saltos do mesmo tamanho. Essa seria sua vida do outro lado do rio.

Os irmãos mais velhos partiram logo depois da morte do pai. Teresa viveu sozinha por vários anos, sempre na esperança de poder atravessar o rio e alcançar sua outra vida. Certa manhã, acordou decidida; hoje teria coragem e iria buscar toda a vida que deixou para trás. A esperança de alcançar o outro lado do rio crescia a cada ano que passava.

Nessa manhã, colocou seu melhor vestido, arrumou seu cabelo em um coque, semelhante ao que sua mãe usava, adornado por vários grampos que sua mãe lhe deixou. Calçou pela primeira vez um sapato de salto do mesmo tamanho, que fora presente de uma das irmãs à sua mãe. Ele era vermelho de verniz e combinava muito bem com sua roupa estampada.

O dia estava perfeito para o seu encontro do outro lado do rio; se dirigiu, mancando, até a margem do rio, entrou, sentiu a água morna aquecer seu corpo e começou a nadar. Precisava ultrapassar a corredeira, que sempre fora seu limite; então estaria em sua própria vida. Cansada de tanto bater os braços e as pernas, chegou ao meio do rio. Enfim conseguiu ver o outro lado.

Assistiu a um pedaço de sua vida. Enxergou sua casa, seu jardim, e um homem brincando no gramado com duas crianças: uma menina, usando sapatos com saltos do mesmo tamanho, e um menino. Tentou se encontrar, virou a cabeça para todos os lados, mas não se achou. Onde ela estaria?

No meio do rio, tirou os sapatos vermelhos de verniz, olhou para trás e desapareceu nas águas profundas.


Silvia Marchiori Buss

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