O jantar

Janete vibrou, pulou, se arrumou... Gastou... Tudo para o jantar na casa do Lucas, colega solteiro, boa pinta… bom partido… pensou a semana toda no convite para comer um risotinho, especialidade do até então colega.

— Depois desse jantar, podemos mudar de nível, de colega para ficante, ficante fixo... Depois para namorados e... E, depois... felizes para sempre... pensava a moça.

Janete, com quase quarenta anos, boa cozinheira e, ainda assim, solteira, não desistia de arrumar um marido. Estava quase aceitando qualquer um... pensava até em seguir o conselho das amigas: melhor mal acompanhada do que sozinha... mas o Lucas era sorte grande; quem sabe esse dava bingo.

Semana superlotada. Comprometida com o convite, gastos com sapato, vestido, depilação, lingeries (essas foram presentes da madrinha de batismo e também futura madrinha do casamento)... gastos e mais gastos.

Janete sabia, por experiência, que um jantarzinho leva ao vinho, o vinho leva aos amassos e daí para a cama são só alguns passinhos...

Janete foi recebida com respeito pelo “colega”, respeito até demais, acreditava ela, mas pensava: a noite ainda é uma criança. Toda meiga e perfumada, ofereceu o vinho que trouxe para o jantar — aqueles infalíveis, como a ocasião pedia.

O risoto era de fato muito gostoso… durante todo o tempo, a conversa foi sobre gastronomia, comidas e receitas.

— Tudo bem — pensou Janete… minha fama de boa cozinheira se espalhou pelo escritório, e homem se pega pelo estômago, já diz o velho ditado...

Ela não parava de flertar com Lucas, que desviava o olhar, se esquivava das mãozinhas cheias de unhas bem feitas... o respeito estava demais. Ela estava quase pulando no pescoço de Lucas, que a cada investida se ouriçava feito gato na água fria.

Perto da meia-noite, a campainha tocou, assustando Janete, que cerrou os punhos com raiva e exclamou, se mostrando indignada:

— Isso é hora de receber visitas, Lucas?

Delicadamente, Lucas pediu licença para atender à porta.

— Chegou bem na hora, meu amor — Janete escutou, meio zonza.

Janete assistiu à cena mais inusitada para o jantar que pretendia ser um promissor “felizes para sempre”.

— Abraçado a um “bofe”, Lucas continuou falando:

— Mauricinho, essa é a amiga que te falei, Janete… esse jantar é para convidá-la a ser sócia do nosso restaurante… é uma ótima economista, super cozinheira e, além do mais, sol-tei-ra… li-vreeee, desimpedidaaa… per-fei-taaaa… maravilhosaaa. Ele se soltou em qualidades para a amiga.

Janete entendeu tudo. Levantou-se, pegou a bolsinha — que lhe custara os olhos da cara — e, sem dizer nada, se arrancou… cabisbaixa e com raiva, pensava no elevador:

— Mer-daaaaaaaaaaaaa, mais dieta, mais receitas, mais jantares, mais gastos… mas quem disse que eu sou mulher...


Silvia Marchiori Buss

Todo o conteúdo deste blog é protegido por direitos autorais. A reprodução sem autorização é proibida. Para uso ou distribuição de obras, entre em contato para obter permissão.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Energia na Parede

Navegando na Ausência

O Silêncio da Professora