O homem da caixa

Na maturidade de seus sessenta anos, Glorinha surpreendeu o marido com o pedido de separação de seu “companheiro” de mais de quarenta anos. Esse, que conquistara Glorinha, era lindo, garçonete do bar em que ele e outros bon vivants de famílias ricas e herdeiros de grandes fortunas frequentavam nos idos dos anos sessenta. O casal teve um casamento morno; depois do rompante do primeiro ano, Glorinha assumiu sua posição de madame, enquanto o rapaz voltava à sua “vidinha” com os amigos, conforme fora criado: mulher em casa e homem na rua, sem dar explicações. Sem nunca precisar trabalhar, Rodolfo não sabia fazer nada a não ser festas, coisa que, com o tempo, passou a irritar sua esposa. Glorinha fora privada da criação de seu único filho, que foi cuidado por criadas e depois foi interno em colégio particular, como era de praxe nas famílias de bem nascidas. 

Mesmo depois de separados, Rodolfo não deixava Glorinha sossegada; todo dia solicitava algum objeto da caixa que durante todo o tempo permaneceu debaixo da grande cama do casal, caixa que a cada ano estufava, mas Glorinha não tinha acesso e sequer desconfiava do que de tão precioso o marido escondia. Após a separação, a pedido de Rodolfo, todo santo dia ela tinha que fuçar na caixa de papelão, já amarelada pelo tempo, e dela recolher o que era solicitado pelo ex. Quando o telefone tocava, Glorinha já sabia quem estava do outro lado; irritada, atendia:

— Fala, Rodolfo. O que queres dessa vez? Por que não leva essa tralha de uma só vez e me deixa em paz?

— Calma, mulher! Me manda o relógio que me presenteaste em nossas bodas; gostaria de usá-lo com meu terno novo.

— Ah! Aquele que sequer deste bola, alegando que não tinha grife e que pessoas de sua estirpe não costumavam usar...

— Deixa disso, Glorinha. Não usei porque não tive oportunidade; agora quero estreá-lo na festa do clube...

— Tá bem, homem! Venha logo, não se atrase. Também quero sair com um amigo.

— Ah! Falando nele, você lembra do Alfredo?

— Não me diz que vais sair com aquele almofadinha...

Cheio de ciúmes e com sua autoestima baixa, Rodolfo fez "elogios" para o camarada que perdeu a linda garçonete para ele.

— Pois fique sabendo que Alfredo é um bem-sucedido advogado e agora viúvo... me convidou para sair, sim.

— Tá bem, mulher, mas saibas que estás fazendo papel de ridículo e...

Glorinha deixou que o ex falasse até se cansar. Sabia que ele estava sentindo-se inferior; não era do feitio dele perder.

Sentou-se no grande e confortável sofá, acendeu um cigarro, que durante todo o tempo de casada fazia escondido, e saboreou uma tragada enquanto pensava na arrogância de Rodolfo. Enquanto esperava, especulava sobre a caixa de papelão. Ali descobriu toda uma vida; todos os encontros e desencontros estavam contidos na caixa. As recordações do casal e do filho, coisas simples que teriam salvado seu casamento. Ela desconhecia o homem da caixa, que seria fácil de amar.

Chorou como uma criança ao descobrir a fragilidade do ex, que sempre se mostrou arrogante e possessivo, e sentiu pena de Rodolfo. Glorinha resolveu entregar o relógio pessoalmente. Vestiu um vestido azul anil, que fora presenteado por Rodolfo e que, por birra, nunca usara, e partiu até o apartamento. Subiu os três lances de escada. Encontrou a porta aberta e circulou de mansinho pela casa. Entrou no quarto. Rodolfo estava sentado na poltrona, com o colo cheio de fotos. O sangue que escorria pelas narinas do ex a fez estremecer. Ajoelhou-se perto dele e acariciou sua mão. Pensou em quanto teriam sido felizes se ele tivesse sido aquele homem da caixa.


Silvia Marchiori Buss

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