O céu de arco-íris
Antônia era a mulher mais mandona que se conhecia... Em tudo ela dava pitaco, mandava nos filhos, no marido, nas noras, nos netos pequenos e grandes, e até no machão do genro, que ficava pianinho diante da "sabedoria de D. Antônia"... Isso para não ficar constrangido. O genro costumava dizer que a sogra era uma mulher de atitude, e com ela ninguém podia... Era tão mandona que até comandava o padre da paróquia, determinando os dias e horários das missas. Dona Antônia era muito católica, não perdia uma missa sequer.
No dia de seu aniversário de setenta anos, D. Antônia partiu desta para uma melhor, foi festejar seu aniversário no céu. A festa na terra já estava preparada; poucos têm o privilégio de chegar a essa idade firme, forte e mandona, determinada, como dizia o genro.
Ao chegar no céu, D. Antônia não se conformou com a simplicidade do lugar e, justo no seu aniversário... O lugar deveria parecer mais festivo, mais alegre e colorido... Era tudo muito claro aos olhos da mulher que há pouco havia desencarnado... Perguntou a um, indagou de outro, até descobrir quem comandava o lugar... Ela precisava fazer algumas mudanças para alegrar o ambiente, afinal, ela havia chegado para ficar.
— Dona Antônia, a senhora está no céu. Aqui ninguém mexe, ninguém manda, ninguém determina, a não ser o "Big Boss"... Ele é responsável por todo esse espaço — comunicou-lhe um belo anjinho.
— Não custa tentar, não é? Quem não chora não mama — respondeu a inconformada mulher. — Quero mesmo é falar com Deus, o resto é o resto... Deus haverá de me entender, pelo menos hoje, que é meu aniversário de setenta anos... Ahhh! Ele há de entender... Precisamos de mais cor, mais música, mais alegria por aqui. Tenho certeza de que, assim, mais gente lá de baixo vai se comportar para vir viver aqui.
Determinada, D. Antônia saiu a caminhar pelo céu à procura do Big Boss. Durante a caminhada de reconhecimento do lugar, a mulher encontrou vários conhecidos que há muito não via... Alguns, ela até concordava que estivessem ali... Mas outros, achava injusto... Encontrou até o agiota, em quem deu uma surra certa vez pelo tanto de juros que ele cobrou do marido dela... O homem também estranhou a presença de Antônia:
— O que a senhora faz aqui? Pelo tanto que a senhora é mandona, deveria ter descido...
E travou-se uma boa discussão no céu... Tal discussão rendeu um comício dos bons: “Tu merece, tu não merece” e blá, blá, blá... Um apito bem estridente foi escutado pelos briguentos, sinalizando que cessassem a discussão, que encerrassem o comício, já que estavam no céu.
Ao encontrar Deus, D. Antônia explicou tudinho a Ele, tim-tim por tim-tim. Explicou ao Big Boss:
— Sr. Big Boss, veja que injustiça aconteceu comigo! Bem no dia dos meus setenta anos, o anjo da morte veio me resgatar e agora tô aqui, sem festa, sem cor, sem música... Só esse silêncio melancólico... Assim não dá... Muito monótono esse lugar...
Continuou, num desabafo só:
— Acho injusto ter sido hoje, logo hoje, quando a festa estava toda preparada! Tortas frias feitas no capricho, coxinha, pastel, brigadeiro e até olho de sogra... Veja só que cardápio! E eu aqui, perdendo toda essa festa.
D. Antônia olhou para baixo, para ver se encontrava o jardim de sua casa. Bingo! Viu o jardim todo arrumadinho para a grande festa. Porém, avistou seu caixão, de cor escura e muito sem graça, estacionado na frente da garagem. Avistou os convidados da festa, que aproveitaram e já ficaram para o velório. Estavam lambuzando os beiços com os quitutes preparados por ela... Viu D. Etelvina preparando um saquinho recheado de salgadinhos e brigadeiros para levar para casa. Até o padre estava preparando sua marmitinha... Por essa D. Antônia não esperava...
— Eu sempre soube que era ela... Safada essa mulher — falou D. Antônia ao Big Boss. E continuou a prosa com o Chefe dos Chefes: — Só por hoje... música, cor, quitutes... Afinal, eu mereço! E blá, blá, blá...
Cansado de tanto falatório, o Big Boss se rendeu. A “determinada” mulher passou a comandar e organizar todas as festas que aconteceriam no lugar... Exigiu que pelo menos dois arco-íris ficassem permanentemente a postos no céu. Assim, o lugar estaria bem sinalizado e muito mais feliz. E se tornaria o melhor lugar do mundo para se viver eternamente.
Ao chegar no céu, D. Antônia não se conformou com a simplicidade do lugar e, justo no seu aniversário... O lugar deveria parecer mais festivo, mais alegre e colorido... Era tudo muito claro aos olhos da mulher que há pouco havia desencarnado... Perguntou a um, indagou de outro, até descobrir quem comandava o lugar... Ela precisava fazer algumas mudanças para alegrar o ambiente, afinal, ela havia chegado para ficar.
— Dona Antônia, a senhora está no céu. Aqui ninguém mexe, ninguém manda, ninguém determina, a não ser o "Big Boss"... Ele é responsável por todo esse espaço — comunicou-lhe um belo anjinho.
— Não custa tentar, não é? Quem não chora não mama — respondeu a inconformada mulher. — Quero mesmo é falar com Deus, o resto é o resto... Deus haverá de me entender, pelo menos hoje, que é meu aniversário de setenta anos... Ahhh! Ele há de entender... Precisamos de mais cor, mais música, mais alegria por aqui. Tenho certeza de que, assim, mais gente lá de baixo vai se comportar para vir viver aqui.
Determinada, D. Antônia saiu a caminhar pelo céu à procura do Big Boss. Durante a caminhada de reconhecimento do lugar, a mulher encontrou vários conhecidos que há muito não via... Alguns, ela até concordava que estivessem ali... Mas outros, achava injusto... Encontrou até o agiota, em quem deu uma surra certa vez pelo tanto de juros que ele cobrou do marido dela... O homem também estranhou a presença de Antônia:
— O que a senhora faz aqui? Pelo tanto que a senhora é mandona, deveria ter descido...
E travou-se uma boa discussão no céu... Tal discussão rendeu um comício dos bons: “Tu merece, tu não merece” e blá, blá, blá... Um apito bem estridente foi escutado pelos briguentos, sinalizando que cessassem a discussão, que encerrassem o comício, já que estavam no céu.
Ao encontrar Deus, D. Antônia explicou tudinho a Ele, tim-tim por tim-tim. Explicou ao Big Boss:
— Sr. Big Boss, veja que injustiça aconteceu comigo! Bem no dia dos meus setenta anos, o anjo da morte veio me resgatar e agora tô aqui, sem festa, sem cor, sem música... Só esse silêncio melancólico... Assim não dá... Muito monótono esse lugar...
Continuou, num desabafo só:
— Acho injusto ter sido hoje, logo hoje, quando a festa estava toda preparada! Tortas frias feitas no capricho, coxinha, pastel, brigadeiro e até olho de sogra... Veja só que cardápio! E eu aqui, perdendo toda essa festa.
D. Antônia olhou para baixo, para ver se encontrava o jardim de sua casa. Bingo! Viu o jardim todo arrumadinho para a grande festa. Porém, avistou seu caixão, de cor escura e muito sem graça, estacionado na frente da garagem. Avistou os convidados da festa, que aproveitaram e já ficaram para o velório. Estavam lambuzando os beiços com os quitutes preparados por ela... Viu D. Etelvina preparando um saquinho recheado de salgadinhos e brigadeiros para levar para casa. Até o padre estava preparando sua marmitinha... Por essa D. Antônia não esperava...
— Eu sempre soube que era ela... Safada essa mulher — falou D. Antônia ao Big Boss. E continuou a prosa com o Chefe dos Chefes: — Só por hoje... música, cor, quitutes... Afinal, eu mereço! E blá, blá, blá...
Cansado de tanto falatório, o Big Boss se rendeu. A “determinada” mulher passou a comandar e organizar todas as festas que aconteceriam no lugar... Exigiu que pelo menos dois arco-íris ficassem permanentemente a postos no céu. Assim, o lugar estaria bem sinalizado e muito mais feliz. E se tornaria o melhor lugar do mundo para se viver eternamente.
Silvia Marchiori Buss

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