O bom moço
O encontro com a turma no bar, depois do expediente, era sagrado para os amigos Joca, Emílio e Gonzaga; este último se gabava muito por ter parentesco com Gonzaguinha... Vivia cantarolando suas músicas... Se achava... Os três amigos eram inseparáveis. O encontro era sempre no mesmo bar, na mesma mesa e no mesmo horário. O compromisso do encontro era mais que um casamento. Ali, bebendo um chope atrás do outro, conversavam sobre futebol, mulheres, trabalho e compartilhavam suas vidas.
Eis que, numa tardinha do rigoroso inverno de 78, se aproximou da mesa um sorridente rapaz... Aparentava ter 30 anos, pouco mais, pouco menos, simpático, moreno, bem arrumado... Pinta de bom moço.
Os três inseparáveis amigos, que não abriam espaço para ninguém, viraram reféns da simpatia do rapaz. Foi amor à primeira vista. Depois de anos, puxaram a cadeira para mais um integrante na turma.
O novato se dizia solteiro, sem problemas financeiros, sem problemas amorosos... Era feliz... Dizia não precisar de muita coisa. Falava coisas que deixavam o trio boquiaberto... Contava histórias que mais pareciam de outro mundo... Tornou-se o falante da turma... Deixou até Gonzaguinha mudo.
Alguns meses se passaram desde o ingresso do bom moço ao trio, quando Gonzaga, dono do celular mais moderno, mostrou uma foto, um tanto intrigante: a foto de um rapaz, cara e focinho do bom moço estampada na lápide de um jazigo do cemitério da cidade vizinha.
— Não pode ser — dizia um...
— Será parente dele? — perguntava outro.
— É só esperar e perguntar a ele. O bom moço há de ter uma resposta — disse Gonzaga, com a foto em punho.
O bom moço não apareceu naquela tarde, nem nas demais. Os amigos não sabiam nada sobre ele, nem o nome do agora desconhecido que os havia hipnotizado com o largo sorriso.
— Só pode ser — constatou Joca..
— Fomos hipnotizados!
— Deve ser um ser de outro planeta — disse Emílio.
O trio não conversava mais; a mesa se calou. Os meses se passaram. Na chegada do verão, rumaram ao cemitério... Constataram que o bom moço era, sim, de outro mundo.

Silvia Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário