Lua de cristal
Clarice tinha cerca de quarenta anos, casada há quase vinte, e estava passando por um período de tempestades e dias escuros. Nada do que imaginava fazer a tirava do desânimo que habitava seu corpo e sua alma... estava sem forças, sem coragem.
Há anos cumpria a mesma rotina: de casa para o trabalho, do trabalho para casa... tal qual a protagonista da música de Chico Buarque: "Todo dia ela faz tudo sempre igual, acorda às seis horas da manhã..." Tudo sempre igual, não mudava uma vírgula sequer. Mesmo aos fins de semana, sua rotina melancólica a perseguia. O marido jogava seu futebol, seguido de uma cervejinha no bar da esquina, até tarde da noite. Os filhos, adolescentes e confusos, se recolhiam em seus quartos para falar com amigos pelos celulares e laptops, sem dar a mínima para a mãe. Tudo sempre, absolutamente, igual.
O calor da noite enluarada convidava Clarice a ausentar-se de sua tristeza, a repousar sua melancolia sob a lua, que mais parecia um cristal puro e translúcido. Clarice repousou o corpo no banco de madeira do pequeno jardim de sua casa... sem pudores e sem decência, esparramou seu corpo no banco que aguentava o peso de sua melancolia. Suas roliças pernas e parte dos seios ficaram totalmente à mercê da lua e do vento morno, que acariciava ternamente seus cabelos ainda fartos e negros.
Diante do silêncio da noite, escutou um breve arranhar de madeira. Pensou que fosse o vento, a leve brisa que se formava ao cair da noite e que também acariciava seu corpo. Novamente Clarice escutou um barulho, seguido de um breve gemido. Abriu seus olhos negros, percebendo que a cortina da casa vizinha se fechava, como se quisesse esconder algo. A cena repetiu-se várias vezes antes de Clarice adormecer.
De repente, começou a sentir uma respiração trêmula e ofegante percorrendo todo o seu corpo, acompanhada de mãos macias e gentis que desenhavam seu corpo com o desejo de quem ama e quer ser amado. Clarice não ousou abrir os olhos, com medo de acordar daquele, talvez, sonho.
Ao amanhecer, refugiou-se em uma poltrona, sossegou seu corpo cansado, porém satisfeito, no tecido macio e carinhoso, confiando o segredo da noite à lua de cristal.
Silvia Marchiori Buss

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