Encontro Marcado
Efigênia nasceu na maternidade do hospital São Paulo, dia 15 de março de 1970, filha muito esperada e desejada; era filha de pais já com certa idade, quase "passando do ponto". Exatamente por isso, foi muito festejada. A família de Efigênia tinha posses; seus pais dominavam o comércio da região. Nasceu em berço de ouro. Todos esperavam a pequena Efigênia como um verdadeiro tesouro.
No mesmo dia, no mesmo hospital, na ala pública que atende aos menos favorecidos, nasce Gabriel, que, diferente de Efigênia, era o quinto filho de uma família humilde, de poucas posses. O menino nasceu com uma marca no rosto, uma pigmentação mais escura que o tom de sua pele clara e coberta de pelos.
Os dois compartilharam a mesma incubadora, pois o hospital, para esses casos, não fazia diferença entre classes econômicas e sociais. A pequena Efigênia precisou da incubadora devido a um problema respiratório, nada assustador; já Gabriel teve maiores complicações.
Os pais das crianças se encontravam com certa frequência no local onde estavam seus bebês. Nesses momentos, o que importava era a saúde e o bem-estar dos pequenos. Não eram consideradas as diferenças. Muitas fotografias foram tiradas da pequena menina e, por consequência, de seu companheiro de incubadora.
A mãe de Efigênia questionava muito o médico, pois tinha receio de que sua bela menina pudesse ser contagiada pela doença do garoto. Foi acalmada pelo médico, que lhe explicou que a doença era congênita e não transmissível.
Efigênia teve alta em poucos dias e foi levada para casa, onde todos os familiares a esperavam com presentes de boas-vindas. Os empregados, uniformizados, estavam em fila para conhecer a “princesinha”.
A menina cresceu rodeada por cuidados, às vezes muito exagerados; não era permitido frequentar praças, lugares públicos, como as outras crianças. Afinal, ela tinha tudo em casa, não precisava buscar nada fora.
Gabriel foi levado dias mais tarde. Seus pais estavam mais tranquilos, pois diagnosticaram que a tal mancha era congênita, não grave, mas com tendência a crescer. O menino foi criado com dificuldades. Seu pai perdeu o emprego e vivia fazendo "bicos" aqui e ali. Pegava qualquer coisa, não negava trabalho, como ele mesmo dizia.
Jonas, pai de Gabriel, apesar de humilde e com pouca educação formal, era muito educado. Aonde ia, levava como companhia seu filho. O homem fora contratado por uma família de classe alta. Sua tarefa na casa seria cuidar do jardim e da piscina, local predileto da filha do casal, por isso mesmo deveria estar sempre muito limpa e higienizada.
Jonas, acompanhado de seu menino, chega à mansão para seu primeiro dia de trabalho. Seu expediente começaria às sete e terminaria às seis horas da tarde. A única restrição dos pais da menina em relação ao filho do jardineiro era que ele não se aproximasse da filha, menina de nove anos de idade.
Jonas concorda, afinal precisa do trabalho e não tem onde deixar o menino. Depois da escola, Gabriel viria para a mansão e ficaria à tarde na casa dos empregados. Ali, aos cuidados do pai, não tomaria sol; aconteceria tudo conforme a recomendação médica.
O menino passava as tardes espiando aquela bela menina banhando-se na água límpida e cristalina da imensa piscina. Vez ou outra, percebia que a menina o olhava com certa tristeza, como se desejasse estar com ele.
Gabriel, por ser diferente, era um menino mais perceptivo, fato comum entre os portadores de diferenças. Pensava sobre o que levaria a menina a ter em seus belos olhos azuis aquela tristeza.
O menino, hoje adolescente, continuava mais sensível que os demais jovens de sua idade. Sentia-se, de certa forma, excluído pela sociedade devido à marca de nascença, que teimava em aumentar e lhe impedia de tomar sol. Mantinha-se protegido por um boné ou se refugiava dentro de casa. Mesmo assim, era feliz. Seu rosto, um tanto deformado, não impedia que o garoto confiasse na vida.
Efigênia, já adolescente, sentia-se diferente, um tanto infeliz, dada sua beleza e condição de vida. A começar pelo nome, que não lhe agradava. Achava-o um nome um tanto antigo e pesado para uma menina como ela. Sabia que possuía tudo do que precisava, mas não era feliz.
Efigênia e Gabriel passaram anos se analisando; ela em sua piscina, sentindo o calor do sol queimando sua pele clara, o que a deixava mais linda, contrastando com o azul de seus olhos. Gabriel, entre quatro paredes, protegido do sol, tinha como contato com o mundo apenas a fresta da janela basculante da casa dos empregados.
Eles nunca se falaram; não era permitido. Jonas insistia para que o menino respeitasse as regras dos patrões, pois emprego não estava fácil.
A garota olhava para Gabriel de forma amável e amiga, às vezes nem percebia sua deformidade. O que lhe chamava a atenção era a doçura do olhar dele, por entre as janelas basculantes dos aposentos dos empregados. Sentia-se bem e, de certa forma, confortada. Gostaria de poder falar com ele, dizer de toda a sua tristeza, pedir socorro, se encontrar. Ela acreditava que somente ele a entenderia.
Gabriel pensava cada vez mais em Efigênia; gostava do seu jeito meigo e triste. Até seu nome lhe soava bem, único. Nunca conhecera alguém com tal nome. Ela era única.
Dia 15 de março, dia especial: Efigênia faria dezoito anos. A casa estava sendo preparada para a grande festa. O movimento era intenso. Contrataram o melhor buffet, vindo da cidade grande. Tudo de melhor para a herdeira de uma rica família. A piscina estava decorada com flores e balões, sua grande diversão. Era exatamente assim que Efigênia resumiria seus dezoito anos. Possuía tudo, mas ao mesmo tempo não tinha nada. Só lhe pertenciam o jardim e o olhar protetor de Gabriel.
Gabriel, nesse mesmo dia, também completaria dezoito anos. Não teria festa; talvez um bolo, após o expediente de trabalho de seu pai, que hoje faria hora extra devido à festa de aniversário de Efigênia.
Durante a festa, Efigênia não tirava os olhos de Gabriel. Procurava em seus olhos um pouco de satisfação e alegria. Ele reconhecia esse pedido. O olhar de Efigênia implorava por sua companhia. Apesar de nunca terem se falado, já reconheciam suas necessidades e anseios somente pelo olhar.
Durante a festa, Efigênia vai ao encontro de Gabriel, levando nas mãos um álbum de fotografias. Ele observa a menina se aproximando. Seus corações batem no mesmo compasso. Sem precisar falar, ela segura a mão de Gabriel, acaricia seu rosto, beija sua face deformada. O álbum seria a confirmação desse encontro marcado pelo destino há exatos dezoito anos.

Silvia Marchiori Buss
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