Ella decide ser feliz
Ella acorda da anestesia e olha ao redor. Reconhece o quarto onde, horas antes da cirurgia, havia se hospedado. Toca o corpo para ver se tudo continuava no lugar. Pela ausência de dor, parece-lhe que o procedimento cirúrgico ao qual se submetera havia corrido bem. Tirando a sensação de "vazio" que sentia na perna direita, logo abaixo do joelho, tudo estava às mil maravilhas. Pensa que, dessa vez, as coisas conspiraram a seu favor.
Toca a campainha que ficava logo acima do leito: precisava ouvir da boca da enfermeira seu estado pós-operatório, já que, com ela, nada era "pouco". Logo ao nascer, já fora "premiada" por um erro, visto que seu nome havia sido um engano, como tudo que acontecia em sua vida. Seu pai, ao chegar um tanto bêbado ao cartório de registro, foi indagado sobre o nome da criança que estava no colo da mãe. Devido ao estado de embriaguez, ele não sabia a qual das meninas o funcionário estava se referindo, já que a mãe carregava "ela" e sua irmã de dois anos no colo. Como resposta à pergunta, o pai disse:
— Ela?
Sem delongas, o funcionário, querendo livrar-se do "orgulhoso" pai, que, pelo visto, andara festejando o nascimento da sexta filha, como ele mesmo havia mencionado, decidiu, por bem, escrever "Ella" com dois Ls, para diferenciar do pronome pessoal. Nome que a fez sofrer várias gozações na escola, em lojas... Enfim, no Brasil. "Ela" com um ou dois Ls não é nome "de gente": com um L é um pronome pessoal da terceira pessoa do singular. Seu maior sentimento em relação ao nome era que nem um pronome "ela" era, já que "Ella" não existia no vocabulário brasileiro.
Dali em diante, ela só lembrava de uma sucessão de enganos. Depois de acionar várias vezes a campainha, entrou no quarto uma bela enfermeira, que sorriu e perguntou:
— Tudo bem com ela?
— Ela quem? — perguntou Ella.
— Com a perna?
— Ah, sim, com ela está tudo bem.
Ella indagou à atenciosa enfermeira sobre seu estado de saúde.
— Tudo na mais perfeita ordem — respondeu sorrindo a enfermeira.
— Eu estava com medo dessa cirurgia — comentou Ella.
— Por quê? Não havia risco nenhum com ela. Digamos que não é algo corriqueiro, mas, em razão das circunstâncias... E hoje em dia, com a tecnologia, nada demais!
— Que bom! — respondeu Ella, feliz. — Porque comigo sempre tem um "senão"; tenho sempre um "se" atravessado na minha vida.
Ella contou à simpática e paciente enfermeira que sua vida sempre fora "premiada" por sucessivos enganos, começando pelo nome:
— Me diga, "Ella" é nome ou pronome?
A enfermeira, percebendo que a paciente, em razão das sequelas da cirurgia, estava eufórica, resolveu aguardar a primeira visita do médico antes de responder. A fim de manter o astral de Ella elevado, perguntou:
— Então, quais outros enganos atravessaram sua vida?
— Perdi um bom emprego logo depois de me formar no magistério porque o computador se enganou e não registrou meu nome na lista dos aprovados. Para ele, "Ella" foi considerado um pronome e corrigido para "ela". Entrei na justiça, mas perdi! Recorri e perdi novamente! Além de ter que pagar a conta abusiva do advogado, que levou quase todas as minhas economias e atrasou essa cirurgia, ainda fui obrigada a pagar uma quantia ao governo. Disseram que era uma multa ou coisa parecida, tudo por causa do "Ella".
Ella, ainda eufórica, continuou relatando à enfermeira os enganos que se sucederam em sua vida:
— Meu noivo me abandonou quase no altar. Alegou que foi um engano precipitar o casamento. Engano? Precipitar? Não era o caso, já que estávamos juntos há quase dez anos! Além disso, os convites, os comes e bebes, o enxoval, que já estava amarelando nos armários, estavam prontos, tudo ajeitadinho para dar certo e... Veja: "tudinho" pago por mim. Bastava ele entrar na igreja e dizer o "sim", nem precisava ser muito alto, só o suficiente para o padre escutar, e então seguiríamos a monotonia dos dez anos. Não, comigo tinha que ser diferente. Descobri que estava sendo enganada pelo Milton havia vários anos. Que fiasco! Abandonada quase no altar! Fiquei tão transtornada quando soube quem era o pivô da traição que até esqueci de desmarcar os convidados, o bufê, a orquestra e até o padre e a igreja. No dia marcado, todos os convidados apareceram "pilchados" para o casamento. Comeram e beberam às minhas custas. Esse engano "duplo" me custou os "olhos da cara". Nem gosto de pensar!
A vida tinha que seguir. Tomei meu rumo, na certeza de que, com uns quilinhos a menos, poderia esquecer alguns desses "senões" que se atravessaram no meu caminho e, quem sabe, até encontrar alguém para compartilhar meus sucessivos enganos. Desse dia em diante, decidi que economizaria tudo o que pudesse; até me privei de coisas que gostaria de ter feito para realizar esse sonho: a redução de estômago!
Agora, quem não entendeu foi a enfermeira, que parou de sorrir e disse:
— Redução de estômago?
— Sim — respondeu Ella, já pressentindo mais um engano em sua vida.
Nesse exato momento, Ella compreendeu o "vazio" que sentia na perna direita, logo abaixo do joelho, desde que acordara da cirurgia de "redução de estômago". Mesmo assim, Ella decide ser feliz!

Silvia Marchiori Buss
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