Crime passional

O carro preto percorria lentamente a avenida principal de uma cidade de porte médio, perto da fronteira com o Uruguai. Dele, ouvia-se o som de uma música apaixonada, mas não mais apaixonada do que o semblante da jovem morena que cantarolava, demonstrando estar muito feliz com a vida. Fabiana era radiante e contava os dias para estar, para sempre, nos braços de seu amado, que lhe prometia amor eterno e dias românticos. Artur esperava terminar um namoro de dois anos, já desgastado, para que pudessem ficar juntos. Juntos para sempre. O casal de amantes jurou amor eterno ao se despedirem na porta do motel.

No carro vermelho, que seguia o carro preto de perto, estava uma mulher jovem e bonita. No entanto, seu semblante era tomado pela raiva, a ponto de transformar seu rosto miúdo, que em dias de calmaria transmitiria apenas pureza. Naquele dia, a bela jovem estava decidida: matar ou morrer. Ingrid não tirava os olhos do carro preto, seguindo-o como se aquela fosse a única coisa que importava em sua vida naquele momento.

Ingrid estava casada com Rodolfo havia mais de cinco anos, e pareciam ser um casal feliz, até o domingo em que, junto com seu irmão gêmeo, o bon vivant Artur, conheceram a recepcionista de um restaurante na zona chique da capital.

Os carros percorreram várias avenidas e ruas até estacionarem muito próximos a uma praça. O traje da jovem morena, ao desembarcar do carro preto, indicava que ela pretendia fazer seu exercício diário.

Sem dizer uma palavra, Ingrid sacou uma arma e desferiu dois tiros no coração que 'abrigava' um amor prometido como eterno.

O carro vermelho, agora aparentemente mais calmo, percorreu o mesmo caminho de volta. Ingrid cantarolava a música festiva que tocava no rádio. Não pensava em nada; parecia aliviada, com a alma lavada.

Ao chegar em casa, encontrou Rodolfo às voltas com telefonemas. Muito abatido, o rapaz olhou para a esposa e balbuciou:

— Mataram a namorada do Artur! Lembra-se dela? A recepcionista do restaurante que frequentamos há pouco mais de um mês.

Silvia Marchiori Buss

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